Passei demasiado tempo
a acreditar
que precisava de ser inteiro
para merecer
um lugar no mundo.
Escondi as minhas falhas
como quem tenta proteger
um castelo
construído de vidro.
Bonito à distância.
Frágil ao primeiro impacto.
Cada desilusão
abriu uma nova fenda.
Cada despedida
deixou uma janela
por onde o vento
entrou sem pedir licença.
E houve dias
em que pensei
que já não restava
nada para salvar.
Mas o vidro partido
tem um segredo
que poucos compreendem.
Quando a luz o atravessa,
cada fragmento
aprende uma maneira diferente
de brilhar.
Foi então
que deixei
de lamentar
as minhas cicatrizes.
Percebi
que elas não eram
a prova
de que eu tinha perdido.
Eram o mapa
de tudo aquilo
que consegui sobreviver.
Nenhuma alma
é feita apenas
de vitórias.
Somos encontros,
quedas,
promessas quebradas,
esperanças recuperadas,
e pequenos milagres
que acontecem
quando decidimos
não desistir.
Hoje já não procuro
reconstruir
o castelo perfeito.
Prefiro levantar
um lar
onde cada imperfeição
tenha espaço para existir.
Porque a verdadeira força
não nasce
daquilo que nunca se parte.
Nasce
da coragem
de juntar os pedaços,
olhar para eles
sem vergonha,
e descobrir
que até um coração
marcado pelo tempo
é capaz
de refletir a luz
de uma forma
que nenhum cristal intacto
alguma vez conseguiria.

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