quarta-feira, setembro 23, 2026

Se Pudesses Ouvir-me


Há perguntas
que ficam para sempre
sem encontrar resposta.

Há ausências
que não se explicam
com palavras,

porque existem despedidas
que deixam no coração
um silêncio impossível de preencher.

Às vezes penso
no que diria
se pudesse falar contigo
mais uma vez.

Talvez não encontrasse
as palavras certas.

Talvez apenas te abraçasse
e ficasse em silêncio,

porque há sentimentos
que nenhuma frase
consegue carregar.

Pergunto-me
se me reconhecerias,

se saberias
quanto pensei em ti,

quantas vezes
o teu nome atravessou
os meus pensamentos
sem que ninguém percebesse.

A vida continuou.

Os dias passaram.

As pessoas sorriram,

os relógios não pararam,

e o mundo pareceu esquecer
que, algures dentro de mim,
ficou um lugar
onde o tempo nunca avançou.

Aprendi a viver
com a saudade.

Não porque tenha deixado
de doer,

mas porque percebi
que amar alguém
também pode significar
carregar a sua ausência
com ternura.

Há momentos
em que olho para o céu
e imagino que existe
alguma forma de distância
onde ainda nos podemos encontrar.

Talvez num sonho.

Talvez numa memória.

Talvez naquele instante
em que o coração aperta
sem razão aparente
e, por um segundo,
parece que estás perto.

Se pudesses ouvir-me,

dir-te-ia que não esqueci.

Que algumas pessoas
não desaparecem verdadeiramente.

Mudam de lugar.

Deixam de estar
ao nosso lado

e passam a viver
dentro de nós.

Nas pequenas coisas.

Num sorriso.

Numa música.

Num céu ao entardecer.

Num momento inesperado
em que a saudade
chega sem avisar.

E talvez seja essa
a única maneira
de continuar a amar
quem já não podemos abraçar:

guardar a sua existência
naquilo que somos.

Hoje sigo em frente,

mas não te deixo para trás.

Levo comigo
aquilo que me ensinaste,

aquilo que senti,

aquilo que nunca conseguirei explicar
completamente.

E quando a saudade
se torna demasiado pesada,

fecho os olhos
e imagino que, algures,
onde não existem distâncias
nem despedidas,

o nosso reencontro
já aconteceu.

Até lá,

continuarei a viver.

A sorrir quando conseguir.

A amar.

A guardar-te
no lugar mais silencioso
do meu coração.

Porque há pessoas
que partem demasiado cedo,

mas deixam uma luz
que o tempo não consegue apagar.

E enquanto essa luz
continuar dentro de mim,

uma parte de ti
continuará a caminhar comigo,

mesmo que os meus olhos
já não te possam encontrar.

terça-feira, setembro 22, 2026

O Abrigo Que Procurei


Há lugares onde nos escondemos

sem sequer perceber
que estamos a fugir.

Eu conheci esse lugar.

Era feito de promessas,
de palavras bonitas,
de braços que pareciam seguros
e de silêncios
que eu confundia com paz.

Queria apenas sentir
que alguém ficaria.

Que, quando o mundo pesasse,
haveria um lugar
onde pudesse pousar o coração.

E talvez tenha pedido demais
a quem não sabia
como me dar aquilo
de que eu precisava.

Confundi proximidade
com presença.

Confundi palavras
com certezas.

Confundi um abrigo
com uma prisão
onde, aos poucos,
deixei de saber quem era.

Havia calor,
mas faltava verdade.

Havia carinho,
mas havia também
uma distância que eu não conseguia atravessar.

E eu permanecia ali,

a tentar encontrar
num olhar
a segurança
que nunca chegava por inteiro.

Até perceber
que nenhum abrigo
pode ser construído
sobre o medo de perder alguém.

Eu não quero mais
um lugar onde tenha
de esconder aquilo que sinto
para continuar a ser aceite.

Não quero mãos
que me segurem
apenas quando lhes convém.

Não quero promessas
que soem bonitas
mas desapareçam
quando chega a tempestade.

Quero algo simples.

Alguém que fique
sem eu ter de pedir.

Um abraço
onde não precise
de explicar a minha dor.

Um olhar
que não me faça duvidar
do lugar que ocupo.

Quero poder chegar
com todas as minhas imperfeições
e ainda assim
sentir que pertenço.

E também quero aprender
a ser esse abrigo para mim.

A não abandonar-me
quando alguém decide partir.

A não diminuir aquilo que sinto
para caber na vida de outra pessoa.

A não chamar amor
àquilo que me faz
sentir sozinho.

Talvez seja essa
a parte mais difícil:

aceitar que nem todo o lugar
que nos protege
é um lugar onde devemos ficar.

Algumas portas
precisam de ser fechadas.

Algumas mãos
precisam de ser libertadas.

Alguns sonhos
precisam de deixar
de ser nossos.

Não porque deixámos de sentir,

mas porque finalmente
aprendemos a distinguir
amor de necessidade.

Hoje, se procuro abrigo,
não procuro paredes.

Procuro verdade.

Procuro tranquilidade.

Procuro alguém
com quem possa existir
sem representar
uma versão mais fácil
de mim.

E se esse lugar
ainda não existir,

eu espero.

Enquanto isso,
construo-o dentro de mim.

Pedra por pedra.

Com aquilo que aprendi.

Com aquilo que sobrevivi.

Com todas as partes
que pensei ter perdido.

Porque já não quero
um abrigo que apenas
me esconda da chuva.

Quero um lugar
onde possa abrir as janelas,
deixar entrar a luz
e respirar profundamente,

sem medo
de que o céu volte a cair.

E quando alguém entrar
nesse lugar,

quero que seja
para ficar por escolha,

não por necessidade.

Porque agora sei:

um verdadeiro abrigo
não é aquele que nos impede
de enfrentar o mundo.

É aquele que nos dá força
para sermos nós próprios
quando voltamos
a sair pela porta.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Quando já não cabe mais


Durante muito tempo
fui guardando tudo dentro de mim.

As palavras que não disse.

As lágrimas que escondi.

As perguntas sem resposta.

Os medos que fingi não ter.

Fui enchendo espaços
que já estavam demasiado apertados,

convencendo-me
de que conseguia carregar tudo
sem deixar nada cair.

Por fora,
continuava a ser eu.

Sorria.

Falava.

Fazia o que tinha de fazer.

Mas por dentro
havia qualquer coisa
a transbordar lentamente.

Pensamentos sobre pensamentos.

Memórias sobre memórias.

Sentimentos que nunca encontraram
um lugar para descansar.

E quanto mais tentava controlar,
mais difícil se tornava respirar.

Havia dias
em que a minha própria cabeça
parecia uma sala sem janelas,

cheia de vozes
a falar ao mesmo tempo.

Queria silêncio.

Queria espaço.

Queria simplesmente
sentir alguma coisa
sem precisar de a compreender.

Até perceber
que não posso continuar
a guardar tudo.

Que também tenho direito
a dizer que dói.

A admitir que estou cansado.

A deixar cair
aquilo que já não consigo carregar.

Talvez eu tenha confundido
força com resistência.

Talvez ser forte
não seja suportar tudo em silêncio,

mas ter coragem
para reconhecer
quando já chega.

Por isso, hoje,
começo a abrir as mãos.

Deixo partir
algumas culpas.

Alguns medos.

Algumas memórias
que já não precisam
de viver comigo.

Não preciso de esquecer
para conseguir seguir.

Preciso apenas
de deixar de viver
dentro daquilo
que me magoou.

E, pouco a pouco,
o espaço aparece.

Primeiro,
um pequeno silêncio.

Depois,
uma respiração mais tranquila.

E finalmente
um lugar dentro de mim
onde posso voltar
a ouvir a minha própria voz.

Ainda existem dias
em que tudo ameaça transbordar.

Mas agora sei
que não preciso
de fechar todas as comportas.

Posso parar.

Posso respirar.

Posso pedir ajuda.

Posso deixar alguém aproximar-se.

Posso dizer:

“Hoje não consigo sozinho.”

E isso não me torna fraco.

Torna-me humano.

Talvez seja isso
que eu precisava aprender:

não fui feito
para guardar o mundo inteiro
dentro do peito.

Há coisas que precisam
de ser ditas.

Há dores que precisam
de ser choradas.

Há pesos que precisam
de ser pousados.

E há uma vida inteira
à minha espera
do outro lado
desse silêncio.

Por isso,
se hoje eu transbordar,

não vou ter vergonha.

Deixarei que tudo saia.

As lágrimas.

As palavras.

O medo.

A tristeza.

Tudo aquilo
que durante tanto tempo
tentei esconder.

E quando finalmente
restar apenas silêncio,

talvez consiga perceber
que não estava a desmoronar.

Estava apenas
a abrir espaço

para voltar

a respirar.

domingo, setembro 20, 2026

A Luz Que Eu Ainda Procuro


Há noites
em que olho para o céu
e parece que todas as estrelas
se esqueceram de mim.

Fico ali,
entre o silêncio e a esperança,
a tentar descobrir
se ainda existe alguma luz
capaz de me encontrar.

Já esperei demasiado
por respostas
que nunca chegaram.

Por uma mão
que aparecesse no momento certo.

Por alguém que dissesse
que tudo ficaria bem.

Mas aprendi
que nem sempre a luz
vem de fora.

Às vezes esperamos tanto
que alguém nos salve
que esquecemos
que ainda conseguimos
dar um passo sozinhos.

Eu também tive noites
em que pensei
que não havia amanhã.

Dias em que o coração
se cansou de acreditar.

Momentos em que a esperança
parecia apenas
uma palavra bonita
sem lugar na minha vida.

Mas continuei.

Mesmo sem saber porquê.

Continuei quando não tinha forças.

Continuei quando o caminho
parecia desaparecer
debaixo dos meus pés.

E talvez tenha sido aí
que alguma coisa mudou.

Percebi que não precisava
de ver o fim da noite
para acreditar na manhã.

Bastava continuar.

Um passo.

Depois outro.

Uma respiração.

Mais um dia.

Talvez a luz
que eu procurava
nunca chegasse da forma
como a imaginei.

Talvez não fosse
um acontecimento extraordinário,

nem uma resposta perfeita,

nem alguém a aparecer
para apagar todas as minhas dores.

Talvez fosse apenas
a pequena vontade
de não desistir.

Aquele instante
em que, mesmo cansado,
o coração diz:

“Mais uma vez.”

E eu ouvi.

Hoje ainda tenho cicatrizes.

Ainda existem dias
em que a escuridão
parece demasiado próxima.

Ainda há coisas
que não compreendo.

Mas já não tenho tanto medo
da noite.

Porque sei
que posso atravessá-la.

E, enquanto caminho,
vou aprendendo
a criar a minha própria luz.

Não uma luz perfeita.

Não uma luz que elimine
tudo o que dói.

Uma luz pequena,

mas verdadeira,

capaz de iluminar
apenas o próximo passo.

E talvez seja suficiente.

Porque não preciso
de saber onde termina
o caminho.

Preciso apenas
de continuar.

Até que um dia
olhe para trás

e perceba

que aquela luz
que esperei durante tanto tempo

não estava escondida
no fim da noite.

Estava comigo
desde o início.

Eu é que ainda
não tinha aprendido

a vê-la.

sábado, setembro 19, 2026

O Vazio Que Deixei Para Trás

Há dias em que sinto
que preciso de qualquer coisa
que me faça esquecer
a monotonia dos dias iguais.

Não procuro uma fuga.

Procuro uma sensação
que me acorde por dentro,
que faça o coração acelerar
e me devolva aquela vontade
de viver sem pensar demasiado.

Preciso de algo
que não tenha efeitos secundários,
que não me roube a lucidez,
mas que consiga transformar
um dia comum
num momento impossível de esquecer.

E então apareces tu.

Com esse sorriso
que desarma as minhas defesas,
com esse olhar
que parece saber exatamente
onde tocar
sem sequer me tocar.

Talvez sejas tu
aquilo que eu procurava
sem saber que procurava.

Não uma cura
para aquilo que me falta,

mas uma razão
para deixar de procurar.

Porque contigo
não preciso de esquecer o mundo.

Quero senti-lo.

Quero rir mais alto,
ficar acordado até tarde,
inventar planos sem sentido,
perder-me em conversas
que nunca queremos terminar.

Quero aquela vertigem
que começa num olhar
e termina num sorriso.

Quero a tua presença
nos meus dias bons
e nos dias em que tudo pesa.

Quero sentir
que ainda existe dentro de mim
uma parte capaz de se surpreender,
de desejar,
de sonhar
e de se apaixonar.

E se o amor tem mesmo
alguma espécie de loucura,

então talvez eu não queira
ser curado.

Quero apenas
continuar a sentir
esta coisa estranha e bonita
que acontece quando penso em ti.

Porque há pessoas
que nos fazem perder o equilíbrio.

E há pessoas
que nos fazem perceber
que nunca estivemos
tão vivos.

Tu és assim.

Não preciso de outra coisa.

Preciso apenas
desse instante em que apareces,

desse sorriso que fica comigo
mesmo depois de partires,

e dessa sensação
de que, por alguns momentos,

o mundo inteiro
fica exatamente
onde devia estar.

E talvez seja isso
que eu sempre procurei:

não algo que me faça
esquecer a vida,

mas alguém
que me faça

querer vivê-la

com muito mais intensidade.

sexta-feira, setembro 18, 2026

Também Eu Sinto


Há dias
em que tudo parece demasiado.

O mundo continua a girar,
as pessoas continuam a sorrir,
os relógios continuam a avançar,

mas dentro de mim
há qualquer coisa
que simplesmente não consegue acompanhar.

Há momentos
em que me sinto cansado
de fingir que sou forte.

De dizer que está tudo bem
quando, na verdade,
só queria encontrar
um lugar onde pudesse
baixar a guarda.

Também eu sinto.

Também eu me perco.

Também eu tenho dias
em que não sei
para onde levar aquilo
que trago dentro do peito.

Aprendi a esconder
muitas coisas atrás de um sorriso.

Talvez porque sempre achei
que mostrar a dor
era mostrar fraqueza.

Hoje sei que não é.

Há uma coragem silenciosa
em admitir:

“Hoje não estou bem.”

E não há vergonha nenhuma
em precisar de parar.

Em respirar.

Em chorar.

Em pedir um abraço
sem conseguir explicar
porquê.

Todos carregamos
batalhas que ninguém vê.

Há pessoas que sorriem
enquanto lutam contra tempestades
que nunca chegam
a contar a ninguém.

Eu também tenho as minhas.

Algumas deixaram cicatrizes.

Outras ainda doem.

Mas aprendi
que uma noite difícil
não significa que a vida
será sempre escura.

Há manhãs
que chegam devagar.

Há pequenas coisas
que conseguem devolver
um pouco de luz.

Uma palavra.

Um abraço.

Um olhar.

A presença de alguém
que fica
quando seria mais fácil partir.

E talvez seja isso
que mais precisamos
nos momentos difíceis:

não de alguém
que tenha todas as respostas,

mas de alguém
que simplesmente diga:

“Estou aqui.”

Por isso,
quando eu próprio me sentir perdido,

vou tentar lembrar-me
de que não preciso
de resolver tudo hoje.

Posso avançar devagar.

Posso descansar.

Posso recomeçar
quantas vezes forem necessárias.

Porque a dor passa por fases.

A saudade muda de forma.

As feridas aprendem
a fechar.

E aquilo que hoje parece
impossível de suportar
pode, um dia,
tornar-se apenas
uma memória de uma batalha
que consegui atravessar.

Também eu sinto.

Também eu sofro.

Mas também eu continuo.

E enquanto houver
um pequeno espaço
para a esperança,

uma razão para acordar,

um abraço para receber,

um coração para amar,

eu vou continuar
a escolher a vida.

Mesmo nos dias difíceis.

Mesmo quando não tenho respostas.

Mesmo quando a luz
parece demasiado distante.

Porque aprendi
que não é preciso
ser forte o tempo inteiro.

Às vezes,

ser forte

é simplesmente

não desistir

de chegar

ao próximo amanhecer.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Leva-me Contigo

Há momentos em que o mundo
parece parar por um instante,
e basta uma presença, um olhar,
para tudo ganhar outro significado.

Há uma força que nos aproxima,
uma vontade difícil de explicar,
como se o coração soubesse
antes de nós onde quer ficar.

Quero viver esse sentimento
sem medo do que possa acontecer,
deixar que a ternura nos envolva
e que o desejo nos ensine a sentir.

Porque há amores que não precisam de promessas,
nem de palavras perfeitas para existir.
Basta encontrar alguém
que nos faça querer ficar,
que transforme cada instante
num motivo para sorrir.

E se a vida nos der esse momento,
quero vivê-lo sem hesitar:
entregar-me àquilo que sentimos
e deixar o coração
levar-nos para onde quiser chegar.

quarta-feira, setembro 16, 2026

Nós Somos o Agora

Somos feitos de instantes,
de sonhos que ninguém consegue prender,
de noites que parecem eternas
e manhãs que nos ensinam a renascer.

Há um mundo inteiro lá fora,
mas quando estás junto de mim,
tudo parece mais pequeno,
como se o universo começasse aqui.

Somos aquilo que sentimos,
mesmo quando temos medo de sentir,
duas almas imperfeitas
que escolheram ficar,
mesmo sem saber onde ir.

E se o tempo mudar os nossos caminhos,
se o amanhã trouxer outra direção,
quero guardar aquilo que fomos:
a coragem de viver o presente
com o coração nas mãos.

Porque talvez a vida seja isto —
encontrar alguém no meio da multidão
e descobrir, num simples olhar,
que há encontros que não acontecem por acaso.

E enquanto houver céu sobre nós,
enquanto houver sonhos para alcançar,
quero estar contigo,
sem promessas impossíveis,
apenas com a certeza
de que juntos somos mais do que dois.

Somos o instante.
Somos o desejo.
Somos a esperança de continuar.

Somos nós
e, por agora,
isso é tudo o que preciso.

terça-feira, setembro 15, 2026

A Noite Dentro da Minha Cabeça


Há noites
em que o sono foge
e deixa para trás
um quarto cheio de pensamentos.

Fecho os olhos,

mas a mente permanece acordada,

a percorrer corredores
onde nenhuma porta
parece levar ao silêncio.

Uma pergunta chama outra.

Uma lembrança
acorda outra.

E aquilo que durante o dia
consigo esconder
ganha voz quando tudo
à minha volta
fica quieto.

Penso demasiado.

Sinto demasiado.

Revejo palavras,
gestos,
olhares,

como se existisse
alguma resposta escondida
num detalhe
que deixei escapar.

O relógio avança.

A noite fica mais profunda.

E eu continuo aqui,

preso entre o cansaço
do corpo
e a inquietação
da cabeça.

Há pensamentos
que não pedem licença.

Entram.

Sentam-se.

Ficam.

Transformam pequenas dúvidas
em tempestades
e coisas simples
em labirintos impossíveis.

Por vezes,

só queria desligar
por algumas horas
a máquina dentro de mim.

Não pensar.

Não procurar razões.

Não antecipar o amanhã.

Apenas respirar.

Mas a mente insiste
em construir cenários
que talvez nunca aconteçam,

em ressuscitar momentos
que já morreram,

em transformar
o passado
num lugar onde continuo
a viver.

Até que percebo:

nem todos os pensamentos
merecem uma resposta.

Nem todas as perguntas
precisam de ser resolvidas
durante a madrugada.

Há coisas
que só parecem enormes
porque a noite
as ilumina de forma diferente.

Então respiro.

Deixo o relógio continuar.

Deixo as sombras passar.

E digo a mim mesmo
que amanhã
será outro dia.

Talvez algumas respostas
cheguem com a luz.

Talvez outras
simplesmente deixem
de importar.

Por agora,

não preciso de vencer
a minha própria cabeça.

Preciso apenas
de lhe ensinar
que também existe silêncio.

Que nem tudo precisa
de ser pensado.

Que nem toda a dor
precisa de uma explicação.

E que, mesmo depois
da noite mais longa,

há sempre um instante
em que o céu começa
a clarear,

e a mente cansada
percebe finalmente

que sobreviver à escuridão
também é

uma forma

de encontrar

a manhã.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Desejo

Há desejos que chegam em silêncio,
sem pedir licença para ficar,
nascem num olhar demorado
e crescem sempre que tentamos disfarçar.

Há uma força invisível
que nos aproxima sem explicar,
como se o coração soubesse
antes de nós onde quer chegar.

É uma vontade que não se apaga,
mesmo quando tentamos resistir,
uma chama escondida no peito
que só precisa de um instante para ressurgir.

Talvez desejar seja isso:
sentir falta antes da partida,
querer tocar aquilo que nos chama
e deixar que o sentimento
nos conduza pela vida.

Porque existem encontros
que despertam qualquer coisa em nós,
uma inquietação doce e profunda
que transforma o silêncio
numa linguagem que só o coração entende.

E quando finalmente deixamos de lutar
contra aquilo que sentimos,
percebemos que alguns desejos
não vieram para passar.

Vieram para nos lembrar
de que ainda sabemos sentir.

domingo, setembro 13, 2026

Do Lado de Dentro

Há feridas
que ninguém vê.

Ficam escondidas
atrás de um sorriso,
entre palavras tranquilas
e silêncios cuidadosamente escolhidos.

Por fora,
pareço inteiro.

Por dentro,
há tempestades
que aprendi a atravessar sozinho.

Guardei demasiado tempo
aquilo que sentia.

Medo.

Desilusão.

Raiva.

E todas as palavras
que nunca encontrei coragem
para dizer.

Fui acumulando
pequenas dores
até que o coração
já não soube
onde guardar mais uma.

E então percebi:

não eram os outros
que mais me feriam.

Era tudo aquilo
que eu permitia
que continuasse a viver
dentro de mim.

Ressentimentos
que nunca me deixavam partir.

Memórias
que insistiam em voltar.

Promessas quebradas
que ainda esperavam
uma explicação.

Tive de olhar para dentro
sem desculpas.

Sem culpas.

Sem máscaras.

E reconhecer
que também eu
precisava de perdão.

Não para esquecer
o que aconteceu,

mas para deixar
de ser prisioneiro
daquilo que já passou.

Algumas pessoas
deixaram marcas.

Algumas despedidas
deixaram vazio.

Algumas palavras
mudaram para sempre
a forma como via o mundo.

Mas nenhuma delas
precisa de decidir
quem serei amanhã.

Hoje escolho
não carregar ódio.

Escolho não alimentar
as feridas.

Escolho transformar
a dor em compreensão
e as cicatrizes
em força.

Porque existe uma liberdade
que só encontramos
quando deixamos
de lutar contra o que sentimos.

Quando aceitamos
o que somos,

quando perdoamos
o que fomos,

e quando finalmente
abrimos espaço
para aquilo que ainda
podemos ser.

Talvez a verdadeira mudança
não aconteça quando
o mundo à nossa volta
se transforma.

Talvez aconteça
no instante silencioso
em que, do lado de dentro,

decidimos

que já não queremos
viver presos
àquilo que nos magoou.

sábado, setembro 12, 2026

Enquanto a Luz Não Volta


Há dias em que acordo
e sinto que o mundo
pesa mais do que devia.

Sorrio,

respondo que estou bem,

continuo a fazer
aquilo que esperam de mim,

mas há uma parte de mim
que só queria parar
por um instante
e respirar.

Aprendi a esconder o cansaço
atrás de palavras tranquilas.

A dizer “não é nada”
quando, por dentro,
há demasiado a acontecer.

Talvez porque sempre pensei
que precisava de ser forte.

Que não podia mostrar
quando estava cansado,

quando tinha medo,

quando precisava simplesmente
de alguém que dissesse:

“Fica aqui.
Não tens de enfrentar tudo sozinho.”

Hoje começo a perceber
que também tenho direito
a não estar bem.

Tenho direito
a abrandar.

A fechar os olhos
e deixar o mundo esperar.

A aceitar que algumas feridas
não desaparecem
porque fingimos que não existem.

E, quando a vida me parece
demasiado pesada,

lembro-me de que já atravessei
noites que pareciam não ter fim.

Também pensei, algumas vezes,
que não conseguiria.

E, no entanto,

a manhã chegou.

Sempre chegou.

Talvez seja isso
que preciso de recordar
nos dias mais difíceis:

não tenho de resolver
a minha vida inteira hoje.

Só preciso
de chegar ao amanhã.

Um passo.

Uma respiração.

Mais uma manhã.

Mais uma oportunidade
de voltar a sentir
aquilo que agora parece distante.

E se alguém que amo
estiver a passar
por uma tempestade,

quero que saiba
que não precisa de esconder
a dor de mim.

Pode pousar o peso
dos seus ombros.

Pode chorar.

Pode ficar em silêncio.

Eu fico.

Porque sei o que é
precisar de alguém
e não saber como pedir.

E talvez cuidar
também seja isto:

não tentar apagar
a escuridão de quem amamos,

mas permanecer ao seu lado
até que os olhos
se habituem novamente
à luz.

Por isso,
se hoje não conseguires sorrir,

não faz mal.

Se precisares de tempo,

eu espero.

Se precisares de silêncio,

eu fico em silêncio contigo.

E se amanhã
for apenas um pouco melhor,

já será suficiente.

Porque acredito
que há dores
que passam devagar,

corações
que precisam de tempo,

e pessoas
que, mesmo cansadas,

ainda conseguem
voltar a florescer.

Eu também estou a aprender isso.

A cuidar de mim.

A não exigir
que o coração seja forte
todos os dias.

E, enquanto aprendo,

continuo.

Porque ainda há manhãs
que não conheço,

abraços que ainda vou dar,

sorrisos que ainda vou descobrir

e momentos felizes
que ainda não chegaram.

E eu quero estar aqui

quando chegarem.

sexta-feira, setembro 11, 2026

As Asas Que Escolhi


Há palavras
que ficam dentro de nós
muito depois de serem ditas.

Frases que se tornam paredes,
olhares que se transformam em espelhos,
e expectativas
que nos ensinam a duvidar
daquilo que realmente somos.

Durante demasiado tempo,
tentei ser alguém
que pudesse merecer aprovação.

Procurei respostas
em vozes que nunca compreenderam
as minhas batalhas.

E cada vez que falhava,
sentia que me afastava
mais de mim próprio.

Até perceber
que não nasci
para representar
a história que outros escreveram.

Não sou os erros
que cometeram comigo.

Não sou as palavras
que me fizeram acreditar
que não era suficiente.

Não sou o passado
que tentaram colocar
sobre os meus ombros.

Sou aquilo que escolho fazer
com tudo o que vivi.

Posso carregar cicatrizes
sem permitir que elas
me definam.

Posso lembrar a dor
sem continuar a viver dentro dela.

Posso perdoar
sem voltar a aceitar
aquilo que me destruiu.

E talvez crescer
seja precisamente isto:

ter coragem
de quebrar o silêncio,

de olhar para trás
sem medo,

e dizer:

“Eu não continuarei
a repetir aquilo
que um dia me magoou.”

Porque há heranças
que não precisamos de aceitar.

Há ciclos
que nasceram antes de nós
e que podem terminar
connosco.

E existe uma liberdade
que começa
quando deixamos de procurar
a aprovação de quem nunca soube
ver o nosso verdadeiro valor.

Hoje escolho
ser dono da minha voz.

Escolho construir
uma vida que me pertença.

Não para provar
que alguém estava errado,

mas para finalmente provar a mim mesmo
que sou capaz
de ser diferente.

E se algum dia
alguém olhar para a minha história
e perguntar quem me tornei,

não quero que a resposta
seja encontrada
nas sombras do passado.

Quero que esteja
na pessoa que aprendeu
a amar sem medo,

a perdoar sem se perder,

a levantar-se sem vergonha

e a caminhar pela vida
sem carregar
o peso de ser aquilo
que nunca quis ser.

Porque o passado
pode explicar as minhas raízes,

mas nunca terá o direito
de decidir

até onde

as minhas asas

podem voar.

quinta-feira, setembro 10, 2026

Já Não Quero Ser Quem Esperavam

Durante demasiado tempo
tentei caber
na imagem que criaram de mim.

Aprendi a sorrir
quando queria gritar,
a concordar
quando tudo dentro de mim
pedia para dizer não.

Fui-me tornando
aquilo que esperavam,

até quase esquecer
quem eu era
antes de começar
a tentar agradar.

Cada expectativa
era mais um peso.

Cada comparação,
mais uma dúvida.

E, pouco a pouco,
comecei a olhar para mim
como se nunca fosse suficiente.

Mas ninguém consegue
viver eternamente
contra a própria essência.

Há um momento
em que o coração se cansa
de fingir.

Um instante
em que todas as vozes exteriores
perdem força
e conseguimos finalmente
ouvir a nossa.

Foi nesse silêncio
que me encontrei.

Não sou perfeito.

Nunca fui.

Tenho medos,
tenho falhas,
tenho cicatrizes
que ainda doem
quando certas memórias regressam.

Mas sou eu.

E, pela primeira vez,
isso basta.

Já não quero viver
para corresponder
ao sonho de outra pessoa.

Não quero vestir
uma versão de mim
que não reconheço
quando me olho ao espelho.

Quero errar
sem sentir vergonha.

Quero sentir
sem pedir desculpa.

Quero amar
sem esconder o coração.

Quero ser inteiro,
mesmo que a minha verdade
tenha imperfeições.

Porque talvez crescer
seja precisamente isto:

deixar de tentar
ser aquilo que esperam de nós
e começar a descobrir
aquilo que realmente somos.

E se alguém não compreender,

que compreenda o tempo.

Eu já passei demasiado tempo
a abandonar-me
para que os outros
pudessem sentir-se confortáveis.

Agora escolho ficar.

Ficar comigo.

Com a minha verdade.

Com tudo aquilo
que durante tanto tempo
tentei esconder.

E, finalmente,
voltar a sentir
não como alguém
que precisa de ser aceite,

mas como alguém
que aprendeu

que não precisa
de deixar de ser quem é

para merecer

ser amado.

quarta-feira, setembro 09, 2026

Onde Quer Que Eu Vá

Posso mudar de cidade,
atravessar mares, perder-me em novos lugares,
mas há sentimentos que não conhecem distância
nem sabem deixar de nos acompanhar.

Posso seguir por caminhos diferentes,
descobrir horizontes que nunca imaginei,
mas há sempre uma parte de mim
que permanece onde um dia fui feliz.

Porque podemos fugir do passado,
mudar de sonhos, recomeçar,
mas aquilo que realmente nos toca
encontra sempre uma forma de ficar.

E talvez seja essa a estranha beleza da vida:
não importa para onde vamos,
há memórias que caminham conosco
e pessoas que permanecem
mesmo quando já não estão ao nosso lado.

Onde quer que eu vá,
levarei comigo aquilo que senti,
os momentos que me fizeram sorrir,
as marcas que me ensinaram a crescer
e tudo aquilo que, um dia,
fez o meu coração acreditar.

Porque há lugares que deixamos para trás,
mas nunca conseguimos abandonar completamente.
E há pessoas que, mesmo longe,
continuam a viver dentro de nós.

terça-feira, setembro 08, 2026

Antes do Último Adeus


Se ficares mais um pouco,

talvez o silêncio
consiga dizer-te
aquilo que as minhas palavras
nunca souberam explicar.

Não te peço promessas.

Nem juras
que o tempo possa quebrar.

Peço apenas
que não vás agora,

quando ainda existem
tantas coisas bonitas
por viver entre nós.

Há despedidas
que acontecem demasiado cedo.

E há sentimentos
que só percebemos
quando sentimos
a distância a chegar.

Se partires,

levas contigo
uma parte dos meus dias,

os pequenos momentos,

os sorrisos inesperados,

as noites em que o teu nome
era a última coisa
em que eu pensava
antes de adormecer.

E eu ficarei aqui,

a tentar convencer o coração
de que algumas histórias
simplesmente precisam de terminar.

Mas como explicar ao coração
que deve esquecer
aquilo que ainda ama?

Como pedir à memória
que apague um olhar
que ainda ilumina
os meus pensamentos?

Talvez o amor
não seja apenas
saber ficar.

Talvez seja também
ter coragem
para reconhecer
quando alguém se tornou
demasiado importante
para ser deixado para trás.

Por isso,

se ainda houver
um pequeno espaço
entre a despedida
e o último adeus,

fica.

Fica mais um instante.

Deixa-me segurar a tua mão
sem pensar no amanhã.

Deixa-me guardar
o som da tua voz,

o calor do teu abraço,

a paz que existe
quando estamos juntos.

Porque, se tiver de te perder,

quero pelo menos
ter a certeza
de que amámos
tudo aquilo que podíamos.

E se houver uma escolha
entre partir
e tentar mais uma vez,

escolhe ficar.

Não por medo da solidão.

Não por obrigação.

Mas porque, algures
entre dois corações
que se encontraram,

ainda existe
um sentimento
que merece
mais uma oportunidade.

E, se ficares,

prometo não pedir
que o futuro seja perfeito.

Quero apenas
que seja nosso.

Um dia de cada vez.

Um abraço de cada vez.

Um pouco mais de nós
antes que o mundo
nos diga
que é hora de partir.

Porque há pessoas
que passam pela nossa vida.

E há pessoas
que, mesmo quando vão embora,

continuam a viver
num lugar tão profundo
dentro de nós

que nunca chegam
verdadeiramente
a partir.

segunda-feira, setembro 07, 2026

Quando as Estrelas Acordam

Há noites em que o céu parece
guardar segredos só para nós,
e pequenas luzes dançam no escuro
como sonhos à procura de uma voz.

Talvez a noite seja um lugar
onde tudo pode acontecer,
onde os pensamentos ganham asas
e a imaginação aprende a viver.

Há sonhos que chegam sem aviso,
misturam-se com a realidade,
e deixam no peito uma estranha certeza
de que ainda existe magia na cidade.

Quando o mundo adormecer,
quero ficar acordado a sonhar,
a contar as luzes no céu
e a imaginar onde poderão chegar.

Porque talvez a vida seja isso:
pequenos instantes de encantamento,
luzes que brilham por pouco tempo,
mas permanecem para sempre
dentro do nosso pensamento.

domingo, setembro 06, 2026

Corre Sem Olhar Para Trás

Há momentos em que a vida chama
e pede coragem para começar,
deixar para trás o que nos prende
e seguir sem saber onde vamos chegar.

Corre, mesmo que tenhas medo,
mesmo que o caminho pareça incerto.
Às vezes, é preciso perder o rumo
para descobrir o lugar certo.

Não deixes que as dúvidas te parem,
nem que o passado escolha por ti.
Há sonhos à espera de serem vividos
e horizontes que ainda não viste surgir.

Corre atrás daquilo que te faz sentir,
daquilo que te devolve a vontade de viver.
Porque o tempo não espera por ninguém
e há momentos que não voltam a acontecer.

E se o mundo parecer demasiado grande,
lembra-te de que também podes voar.
Basta dar o primeiro passo,
abrir o coração
e deixar a vida te levar.

Corre sem olhar para trás,
não porque não tenhas medo,
mas porque descobriste finalmente
que há sonhos que valem
qualquer salto no desconhecido.

sábado, setembro 05, 2026

Os Sonhos Que Ficam

Havia um tempo em que tudo era possível,
em que o mundo parecia não ter fim,
e cada sonho era uma aventura,
uma história à espera de acontecer.

Corríamos atrás do impossível,
sem medo de cair ou de tentar,
inventávamos futuros no silêncio
e acreditávamos que podíamos voar.

O tempo passou,
levou algumas certezas pelo caminho,
mudou os nossos planos,
mas não conseguiu apagar
aquilo que fomos um dia.

Porque ainda existe dentro de nós
essa vontade de descobrir,
de rir sem motivo,
de viver sem calcular
cada passo antes de seguir.

Talvez crescer seja isso:
aprender a caminhar com mais cuidado
sem deixar morrer a parte de nós
que ainda acredita no inesperado.

E quando a vida parecer séria demais,
quando os dias perderem a cor,
talvez baste recordar
quem éramos antes de aprender
a ter medo dos sonhos.

Porque os anos podem mudar-nos,
mas há coisas que permanecem:
a esperança de recomeçar,
a vontade de sentir,
e aquela pequena voz dentro de nós
que ainda diz:

“Vamos descobrir o que existe
do outro lado do amanhã.”

sexta-feira, setembro 04, 2026

Dourado

Há momentos que chegam devagar,
como a luz que toca o horizonte,
e transformam o que parecia comum
em algo impossível de esquecer.

Há uma beleza escondida
nas coisas que não conseguimos explicar,
num sorriso inesperado,
num olhar que permanece,
num instante que nos faz parar.

Talvez seja preciso perder o medo
de seguir aquilo que sentimos,
de deixar o coração escolher
mesmo quando não conhecemos
o lugar onde vamos chegar.

Porque a vida passa depressa,
e nem tudo pode ser guardado.
Mas há momentos que ficam,
como pequenos raios de ouro
presos para sempre na memória.

E quando o mundo parecer distante,
quando a noite apagar as certezas,
basta lembrar que, algures dentro de nós,
ainda existe uma luz dourada
à espera de voltar a nascer.

quinta-feira, setembro 03, 2026

O Dia em Que Escolhi Mudar

Durante demasiado tempo
vivi preso
aos mesmos pensamentos,

aos mesmos medos,

às mesmas feridas

que, em silêncio,
me ensinavam
a repetir o passado.

Sabia onde tudo começava.

Sabia onde terminava.

E, mesmo assim,
voltava sempre
ao mesmo lugar.

Como se existisse
dentro de mim
uma porta fechada
que eu já nem tentava abrir.

Havia coisas
que nunca disse.

Dores
que escondi atrás de sorrisos.

E batalhas
que ninguém conheceu,

porque aprendi
a lutar sozinho.

Até que um dia
me cansei
de ser prisioneiro
daquilo que me magoava.

Percebi
que não precisava
de continuar a ser
a pessoa que o passado
tinha obrigado a criar.

Podia parar.

Podia respirar.

Podia escolher
um caminho diferente.

E foi assustador.

Porque mudar
também significa
deixar para trás
aquilo que conhecemos,

mesmo quando
nos faz sofrer.

Mas há momentos
em que permanecer
dói mais
do que partir.

Então deixei cair
o que já não conseguia carregar.

Perdoei-me
pelas vezes
em que não soube ser forte.

Perdoei o passado
por ter deixado
tantas marcas.

E, pela primeira vez,
não tentei fugir
de mim.

Fiquei.

Olhei para dentro.

E encontrei
não um homem destruído,

mas alguém
que ainda tinha força
para recomeçar.

Hoje sei
que algumas feridas
não desaparecem.

Aprendemos simplesmente
a não deixar
que elas decidam
quem somos.

E cada manhã
é uma pequena vitória:

um novo pensamento,

uma nova escolha,

um novo começo.

Porque quebrar um hábito
não é apenas deixar
de repetir o passado.

É ter coragem
de acreditar
que o futuro
pode ser diferente.

E talvez a verdadeira liberdade
comece precisamente aí:

no instante
em que deixamos
de perguntar
quanto tempo ainda
conseguiremos suportar

e começamos, finalmente,

a escolher

quanto tempo

queremos viver.

quarta-feira, setembro 02, 2026

Ser Escolhido

Há dias em que o mundo nos faz sentir
como se fôssemos apenas mais um,
perdidos entre rostos e caminhos,
à procura de um lugar onde pertencer.

Mas todos queremos, no fundo,
sentir que alguém nos vê de verdade,
que a nossa presença importa,
que não passamos pela vida
sem deixar uma marca.

Não precisamos de aplausos
nem de multidões a chamar o nosso nome.
Às vezes, basta uma pessoa
que olhe para nós
e escolha ficar.

Porque ser desejado
não é apenas ser procurado.
É ser lembrado,
ser esperado,
ser importante no coração de alguém.

E talvez seja essa
uma das maiores necessidades humanas:
saber que, entre milhões de possibilidades,
há alguém que, se pudesse escolher,
escolheria nós.

No fim, talvez não queiramos conquistar o mundo.

Queremos apenas encontrar
um lugar onde possamos ser nós mesmos
e sentir, sem precisar de perguntar,
que somos exatamente
quem alguém queria encontrar.

terça-feira, setembro 01, 2026

Luzes na Escuridão

Há pequenas luzes na noite
que aparecem sem avisar,
como sonhos que encontramos
quando já deixámos de procurar.

Brilham por breves instantes,
mas conseguem iluminar
os lugares mais escondidos
que aprendemos a guardar.

Talvez a vida seja assim:
feita de encontros e despedidas,
de momentos que passam depressa,
mas deixam marcas para toda a vida.

E quando tudo parecer escuro,
quando o caminho perder a direção,
que nunca nos falte uma pequena luz
para reacender o coração.

Porque, mesmo nas noites mais longas,
há sempre algo a acreditar:
algumas luzes desaparecem no céu,
mas aquilo que fizeram sentir
continua dentro de nós a brilhar.

segunda-feira, agosto 31, 2026

Se Ainda Houver Luz

Quando o mundo parecer pesado
e o silêncio for difícil de suportar,
quando as forças desaparecerem
e já não soubermos para onde olhar,
haverá sempre uma voz
a lembrar-nos que não estamos sós.

Não precisamos de ter respostas
para continuar a caminhar.
Às vezes, basta uma mão estendida,
um abraço, um olhar,
alguém que permaneça por perto
quando tudo parece desabar.

Há batalhas que travamos em silêncio,
medos que ninguém consegue ver,
mas até a noite mais profunda
acaba por aprender a amanhecer.

E quando já não conseguirmos
encontrar o caminho de volta,
talvez seja nesse instante
que alguém nos encontre
e nos recorde quem somos.

Porque ninguém precisa de ser forte
em todos os momentos da vida.
Também precisamos de ser cuidados,
de baixar as defesas,
de admitir que precisamos de alguém.

E se algum dia a escuridão chegar,
que encontremos coragem para pedir ajuda.
Que nunca confundamos solidão com força
nem silêncio com liberdade.

Porque, às vezes,
ser salvo não significa alguém
levar-nos para longe da tempestade.

Significa simplesmente
ter alguém ao nosso lado
até conseguirmos
voltar a encontrar a nossa própria luz.

domingo, agosto 30, 2026

Depois da Mudança

Há dias em que o mundo muda
sem pedir licença ao coração,
e aquilo que ontem parecia eterno
hoje procura outra direção.

Mas talvez mudar seja preciso,
para aprendermos a respirar,
deixar para trás o que nos prende
e abrir espaço para recomeçar.

Se a vida transformar os nossos caminhos,
não quero ter medo de seguir,
quero levar comigo o que foi verdadeiro
e deixar o resto simplesmente partir.

Porque, no meio de tantas mudanças,
há algo que permanece em mim:
a vontade de encontrar-te novamente
onde o nosso amor encontrar o seu fim.

sábado, agosto 29, 2026

Desordem do Coração

Chegaste sem aviso,
e trouxeste contigo
uma doce desordem
para tudo o que eu julgava saber.

Desde então,
os meus pensamentos perderam o rumo,
o coração deixou de obedecer
e cada caminho acaba sempre em ti.

Não sei se é amor,
se é desejo ou loucura,
sei apenas que, quando estás perto,
até o caos parece ter sentido.

E talvez seja essa a beleza de nós:
não precisarmos de entender nada,
porque, no meio desta desordem,
o meu coração encontrou o seu lugar.

sexta-feira, agosto 28, 2026

Diz-me Tu


Diz-me tu o que faço
com esta vontade de te encontrar,
se cada pensamento me leva até ti
e cada silêncio me faz querer ficar.

Diz-me tu se também sentes
essa saudade que não sabe esperar,
essa vontade de ter-me por perto,
de me olhar e simplesmente não falar.

Porque, se o coração tiver resposta,
deixa-o dizer aquilo que a razão não diz:
que, entre tantas voltas que a vida dá,
talvez seja contigo que eu quero ser feliz.