sexta-feira, outubro 09, 2026

Aprender a Ser Feliz


Durante muito tempo,
pensei que ser feliz
era finalmente ter aquilo
que sempre procurei.

Uma pessoa certa.
Um lugar certo.
Uma vida sem sobressaltos.
Um amanhã que não trouxesse
novas razões para ter medo.

Hoje sei que estava enganado.

A felicidade não chegou
quando tudo ficou bem.
Chegou devagar,
nos pequenos momentos
em que percebi
que já não precisava
que tudo estivesse bem
para conseguir sorrir.

Aprendi a gostar
dos dias imperfeitos,
das manhãs em que acordo
sem saber o que me espera,
das conversas que me fazem rir
quando julgava não ter vontade
de falar com ninguém.

Aprendi também
que não preciso de fingir
que estou sempre feliz.

Há dias em que dói.
Há dias em que sinto falta,
em que o passado bate à porta
e me lembra aquilo
que não consegui salvar.

E está tudo bem.

Não quero mais transformar
a minha tristeza
numa culpa.

Nem convencer-me
de que só mereço ser feliz
quando deixar de sentir dor.

Quero aceitar-me inteiro.

Com as minhas dúvidas,
as minhas cicatrizes,
os meus erros,
as coisas que ainda não consegui resolver
e todas aquelas partes de mim
que ainda estou a aprender a amar.

Talvez ser feliz
seja isto:

deixar de esperar
que alguém venha salvar-me
da minha própria vida.

É escolher ficar,
mesmo depois de tantas quedas.

É voltar a olhar para o espelho
e não procurar apenas
aquilo que falta.

É reconhecer
tudo aquilo que ainda existe.

E existe tanto.

Ainda tenho sonhos.
Ainda tenho vontade de amar.
Ainda tenho caminhos por descobrir.
Ainda tenho noites que podem terminar
num sorriso inesperado.

Ainda tenho eu.

E talvez tenha sido isso
que demorei mais tempo a perceber:

não preciso de uma vida perfeita
para ser feliz.

Preciso apenas
de não abandonar a minha própria vida
enquanto espero que ela
se torne aquilo que desejo.

Hoje não prometo
ser feliz todos os dias.

Prometo apenas
não desistir de procurar
aqueles pequenos instantes
em que a felicidade me encontra.

E quando ela chegar,
mesmo que dure pouco,
eu vou parar.

Vou respirar.

Vou olhar à minha volta.

E, pela primeira vez,
em vez de perguntar
se isto é suficiente,

vou simplesmente dizer:

sim.

Hoje, isto chega.

Hoje, eu estou aqui.

E talvez, finalmente,
esteja a aprender
a ser feliz.

quinta-feira, outubro 08, 2026

Arriscar Outra Vez


Há momentos em que a vida
me coloca diante de uma porta
sem dizer o que existe do outro lado.
E eu fico ali,
com a mão suspensa,
a pensar em tudo o que pode correr mal.

Aprendi a desconfiar do impulso,
a medir cada passo,
a imaginar o fim
antes sequer de começar.
Talvez porque já perdi demasiado
por acreditar em coisas
que pareciam certas.

Mas há qualquer coisa em mim
que ainda não aprendeu a desistir.

Talvez seja essa vontade teimosa
de sentir outra vez,
de deixar o medo no lugar
e avançar mesmo sem garantias.
Porque, no fundo,
não quero passar a vida inteira
a proteger-me daquilo
que também me pode fazer feliz.

Por isso, desta vez,
quero arriscar a sorte.

Não porque tenha certezas,
mas porque percebi
que também é preciso coragem
para aceitar que podemos perder.

Quero olhar para alguém
e não fugir quando sentir demasiado.
Quero dizer o que penso
sem esconder aquilo que sou.
Quero deixar cair as defesas
que construí para sobreviver
e descobrir se, por baixo delas,
ainda existe espaço para alguém ficar.

Se correr mal,
aprenderei outra vez.

Se doer,
vou saber que pelo menos vivi.

Mas se resultar...
se desta vez a vida decidir
não me tirar aquilo que desejo,
talvez eu finalmente perceba
que algumas coisas
só aparecem quando temos coragem
de tentar a nossa sorte.

E eu quero tentar.

Sem promessas.
Sem certezas.
Sem saber onde isto vai dar.

Apenas eu,
com todos os meus medos,
todas as minhas cicatrizes
e uma vontade imensa
de descobrir
o que pode acontecer
quando, finalmente,
deixo de ter medo
de ganhar.

quarta-feira, outubro 07, 2026

O Meu Lugar no Paraíso


Houve um tempo
em que eu acreditava
que os sonhos eram feitos
para os outros.

Eu via o mundo
a acontecer diante dos meus olhos
e perguntava-me
onde tinha ficado
o lugar que um dia
imaginei para mim.

Tinha planos.

Tinha esperança.

Tinha aquela vontade
de chegar a algum lugar
onde tudo finalmente
fizesse sentido.

Mas a vida ensinou-me
que nem todos os caminhos
levam diretamente
ao que desejamos.

Alguns obrigam-nos
a perder-nos primeiro.

A atravessar noites
que parecem não ter fim.

A despedirmo-nos
de versões de nós
que já não conseguem
continuar connosco.

Também eu tive dias
em que deixei de acreditar.

Dias em que os sonhos
pareciam demasiado distantes
e o futuro
uma palavra sem significado.

Mas alguma coisa
dentro de mim
continuou a resistir.

Uma pequena voz
que dizia:

“Não é aqui que termina.”

E eu ouvi.

Talvez porque,
mesmo quando tudo parece perdido,
exista dentro de nós
um lugar que ninguém consegue destruir.

Um lugar onde ainda
somos capazes de sonhar.

Foi aí que voltei.

Não para procurar
a vida perfeita,

mas para descobrir
aquilo que realmente
me fazia feliz.

Percebi que o meu paraíso
não precisava de ser
um lugar distante.

Não precisava de riquezas.

Nem de grandes conquistas.

Talvez fosse simplesmente
ter alguém com quem partilhar
um momento bonito.

Ter paz
depois de tantos dias difíceis.

Rir sem motivo.

Acordar e sentir
que ainda vale a pena.

Olhar para o céu
e não sentir vontade
de fugir dele.

Talvez o paraíso
seja poder ser eu
sem medo.

Sem máscaras.

Sem precisar
de provar nada.

E talvez seja isso
que procuro agora:

um lugar onde o coração
não precise de estar sempre
em guerra consigo próprio.

Um lugar onde possa
amar sem medo,

sonhar sem vergonha,

e acreditar
sem precisar de garantias.

Ainda tenho cicatrizes.

Ainda existem dias
em que me sinto perdido.

Mas já não confundo
um dia difícil
com uma vida sem esperança.

Aprendi que até
as noites mais longas
acabam por abrir espaço
para a manhã.

E que alguns sonhos
não desaparecem.

Apenas esperam
que tenhamos coragem
de voltar a procurá-los.

Por isso, hoje,
não quero voltar atrás.

Quero continuar.

Mesmo devagar.

Mesmo sem saber
exatamente onde vou chegar.

Porque agora percebo
que talvez o paraíso
nunca tenha sido
o destino que eu procurava.

Talvez tenha sido
a vontade de continuar
a caminhar até ele.

E se um dia
eu conseguir olhar para trás
sem tristeza,

se conseguir sorrir
para tudo aquilo
que pensei ter perdido,

então saberei
que cheguei.

Não a um lugar perfeito.

Mas a mim.

E talvez seja esse
o verdadeiro paraíso:

acordar um dia
e perceber

que, depois de tudo,

ainda tenho sonhos,

ainda tenho amor,

ainda tenho esperança,

e ainda tenho dentro de mim
um lugar onde a vida
pode voltar a florescer.

terça-feira, outubro 06, 2026

Hoje, Sinto-me Só


Hoje estou triste.

Não é uma tristeza passageira,
daquelas que chegam
e desaparecem com o amanhecer.

É uma tristeza que ficou.

Que se sentou dentro de mim
e parece não ter pressa
de partir.

Estou desiludido.

Com algumas pessoas.

Com algumas palavras
que um dia acreditei.

Com algumas promessas
que pareciam verdade
e acabaram por ser apenas
mais uma ferida.

Estou desapontado.

Talvez porque esperava demais.

Talvez porque dei demasiado.

Talvez porque, no fundo,
só queria sentir
que aquilo que eu sentia
também tinha importância
para alguém.

Hoje sinto-me infeliz.

E custa admitir isso.

Porque tantas vezes
aprendi a sorrir
quando queria chorar,

a dizer “está tudo bem”
quando tudo dentro de mim
pedia para parar.

Estou cansado
de fingir que sou forte.

Cansado de esconder
aquilo que sinto
para não incomodar ninguém.

E o pior de tudo
é sentir-me completamente só
mesmo quando existem pessoas
à minha volta.

Porque a solidão
nem sempre acontece
quando não temos ninguém.

Às vezes acontece
quando temos alguém
e, ainda assim,
sentimos que não temos
onde pousar o coração.

Hoje precisava de um abraço.

Daqueles que não fazem perguntas.

Que não procuram respostas.

Que simplesmente dizem:

“Estou aqui.”

Precisava de alguém
que olhasse para mim
e percebesse
que por detrás do silêncio
há muito que eu não consigo dizer.

Não quero pena.

Não quero que me salvem.

Quero apenas
não me sentir sozinho
enquanto tento
encontrar novamente
o caminho para mim.

Talvez amanhã
seja diferente.

Talvez a tristeza
comece a perder força.

Talvez volte a sorrir
sem precisar de fingir.

Mas hoje,

hoje eu só consigo dizer
a verdade:

estou triste,

desiludido,

desapontado,

infeliz

e completamente só.

E, pela primeira vez,
não vou esconder isso.

Vou deixar a tristeza existir.

Vou deixar-me sentir.

Porque talvez reconhecer
que estou no fundo
seja também
o primeiro passo
para começar a subir.

E se ninguém estiver comigo
neste momento,

eu vou tentar ficar
comigo próprio.

Mesmo cansado.

Mesmo ferido.

Mesmo sem saber
o que vem depois.

Porque, no meio de toda esta solidão,

ainda existe uma parte de mim
que, apesar de tudo,

não desistiu.

segunda-feira, outubro 05, 2026

O Homem Que Vejo em Mim


Hoje parei diante do espelho

e, pela primeira vez,
não procurei defeitos.

Fiquei apenas a olhar.

Para os olhos cansados.

Para as marcas
que o tempo deixou.

Para tudo aquilo
que vivi
e que trouxe comigo
até aqui.

E percebi
que passei demasiado tempo
a esperar que o mundo mudasse,

sem perguntar
o que eu podia mudar em mim.

Culpei a vida.

Culpei as circunstâncias.

Culpei pessoas
que me magoaram.

Algumas vezes
tive razão.

Outras,
talvez não.

Mas hoje não quero
procurar culpados.

Quero procurar respostas.

Porque há coisas
que não posso controlar,

mas há uma coisa
que depende de mim:

a pessoa que escolho ser
a partir de agora.

Posso continuar
a carregar ressentimentos
como se fossem parte
da minha identidade.

Ou posso pousá-los.

Posso continuar
a alimentar as feridas
com memórias do passado.

Ou posso começar
a deixá-las cicatrizar.

Posso continuar
a esperar que alguém
me dê aquilo
que eu próprio
não tenho dado a mim.

Ou posso começar
a cuidar de mim
com a mesma paciência
que tantas vezes
tive para os outros.

Não quero ser perfeito.

Quero ser verdadeiro.

Quero aprender
a pedir desculpa
quando errar.

A agradecer
quando receber.

A ouvir
antes de responder.

A amar
sem precisar de possuir.

A estender a mão
mesmo quando seria mais fácil
virar costas.

Quero que as minhas palavras
tenham o mesmo valor
que os meus gestos.

Quero que aquilo
que sou quando ninguém olha
seja digno daquilo
que mostro ao mundo.

Porque não adianta
falar de mudança
se continuo a repetir
os mesmos erros.

Não adianta
pedir mais amor
se continuo a levantar muros.

Não adianta
esperar por um mundo melhor
se eu próprio
não estiver disposto
a ser melhor dentro dele.

Por isso, hoje,
começo comigo.

Não com promessas gigantes.

Não com discursos.

Começo pequeno.

Com uma escolha.

Depois outra.

E mais outra.

Até que aquilo que faço
comece finalmente
a parecer-se
com aquilo em que acredito.

Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.

Mas posso mudar
a maneira como atravesso
o mundo.

Posso ser mais gentil.

Mais presente.

Mais humano.

Posso deixar
um pouco de luz
por onde passar.

E talvez seja assim
que as grandes mudanças
realmente começam:

não quando alguém
grita mais alto,

mas quando uma pessoa
decide olhar para dentro
e dizer:

“Eu posso fazer diferente.”

Hoje volto a olhar
para o espelho.

Ainda vejo cicatrizes.

Ainda vejo erros.

Ainda vejo coisas
que preciso de aprender.

Mas também vejo alguém
que não desistiu.

E isso basta
para começar.

Não quero continuar
a perguntar
quando o mundo vai mudar.

Quero perguntar
o que posso mudar em mim
para que o mundo,
mesmo que só um pouco,

se torne diferente
depois de eu passar por ele.

Porque talvez
a transformação que procuro
não esteja lá fora.

Talvez tenha estado sempre aqui.

Diante de mim.

À espera
que eu tivesse coragem
de me reconhecer.

domingo, outubro 04, 2026

Que Tempo Foi Este


Há pessoas que chegam
sem avisar que vão ficar,
e momentos que começam
sem sabermos que um dia
iremos sentir saudades deles.

Contigo foi assim.

Não houve grandes promessas,
nem certezas escritas no futuro.
Houve apenas nós,
alguns risos,
alguns silêncios
e aquele estranho sentimento
de que, por um instante,
o mundo tinha parado.

Ainda me lembro
de como era fácil esquecer as horas,
de como uma conversa podia durar
mais do que a noite,
e de como a tua presença
conseguia tornar especial
um momento que, sozinho,
seria apenas mais um.

Talvez seja isso
que torna certas histórias
tão difíceis de deixar para trás:

não é apenas a pessoa
que nos faz falta.

É quem éramos
quando estávamos com ela.

Hoje, quando penso em nós,
não sei se sinto saudade
ou apenas gratidão
por ter vivido aquilo.

Talvez um pouco dos dois.

Porque houve coisas bonitas
que não precisaram de durar para sempre
para serem verdadeiras.

Houve um tempo
em que fomos exatamente
aquilo de que precisávamos.

E mesmo que a vida tenha seguido,
mesmo que os caminhos tenham mudado,
há memórias que continuam
a aparecer de vez em quando,
como uma música antiga
que ainda sabemos cantar.

E eu pergunto-me:

que tempo foi este?

Como conseguimos ser tão próximos
e, depois, tão distantes?

Como pode alguém
ocupar tanto espaço dentro de nós
e, um dia,
passar a viver apenas
numa memória?

Não tenho respostas.

E talvez já não precise delas.

Prefiro guardar o que foi bonito
sem transformar o passado
num lugar onde preciso de voltar.

Porque algumas pessoas
não entram na nossa vida
para ficar.

Entram para nos ensinar
que somos capazes de sentir,
de confiar,
de rir sem pensar no amanhã
e de viver momentos
que, mesmo breves,
podem permanecer conosco
durante muitos anos.

E se algum dia
me perguntarem por ti,
talvez eu sorria.

Não porque tenha esquecido.

Mas porque, apesar de tudo,
posso olhar para trás
e dizer baixinho:

que tempo bonito foi este
enquanto durou.

sábado, outubro 03, 2026

Não Te Devo Mais Nada


Houve um tempo

em que eu procurava desculpas por ti,
inventava razões para justificar
aquilo que, no fundo,
eu já sabia que estava errado.

Dizia a mim próprio
que talvez fosse apenas uma fase,
que talvez um dia mudasses,
que talvez eu estivesse a exigir demais.

E fui ficando.

Fui engolindo palavras,
calando o que sentia,
aceitando migalhas
como se fossem gestos de amor.

Até perceber
que amar alguém
não devia obrigar-me
a deixar de gostar de mim.

Hoje já não quero respostas.
Já não preciso que reconheças
o que fizeste ou o que perdeste.

Também já não quero
ser aquele que espera,
que perdoa tudo,
que volta sempre
ao mesmo lugar
à procura de uma versão tua
que talvez nunca tenha existido.

Acabou.

E, pela primeira vez,
essa palavra não me assusta.

Não te desejo mal.
Não preciso disso.

Quero apenas distância
entre aquilo que fui contigo
e aquilo que estou finalmente
a aprender a ser sem ti.

Leva contigo
as promessas que não cumpriste,
as palavras que ficaram vazias
e todas as vezes
em que me fizeste duvidar
do meu próprio valor.

Eu fico com as lições.

Fico com as cicatrizes,
com a força que descobri
quando já não tinha mais nada
para me agarrar.

E fico, sobretudo,
com a liberdade
de não voltar atrás.

Porque hoje sei:

não te devo explicações,
não te devo outra oportunidade,
não te devo mais lágrimas
nem mais uma noite
a tentar perceber-te.

A única coisa que te devo
é o silêncio de quem finalmente
deixou de esperar.

E a mim
devo tudo aquilo
que durante tanto tempo
te dei a ti.

O meu tempo.
A minha paz.
A minha dignidade.
A minha vida.

Agora são minhas outra vez.

E desta vez,
não as entrego
a quem não soube cuidar delas.

sexta-feira, outubro 02, 2026

O Salto Que Ainda Não Dei


Passei demasiado tempo

a viver no limite das coisas,
com um pé no chão
e outro numa vontade
que nunca tive coragem de seguir.

Aprendi a olhar para o vazio
e a chamar-lhe prudência.
A dizer que ainda não era o momento,
que talvez amanhã fosse melhor,
que talvez fosse mais seguro
ficar onde já conheço as feridas.

Mas há alturas
em que permanecer parado
também é uma forma de cair.

E eu já não quero
passar a vida inteira
a imaginar como seria
se tivesse tido coragem.

Quero saltar.

Não sei onde vou chegar.
Não sei se haverá chão
ou se terei de aprender
a construir asas pelo caminho.

Sei apenas que existe dentro de mim
uma vontade que já não consigo calar,
uma espécie de fogo tranquilo
a dizer-me que a vida
não foi feita para ser apenas observada.

Talvez eu tenha medo.

Claro que tenho.

Tenho medo de perder,
de me enganar,
de voltar a entregar-me
e descobrir que, afinal,
algumas pessoas
não sabem ficar.

Mas também tenho medo
de acordar um dia
e perceber que deixei passar
tudo aquilo que poderia ter vivido
porque tive demasiado medo
de tentar.

Por isso, desta vez,
não quero garantias.

Quero movimento.

Quero fechar os olhos,
respirar fundo
e dar aquele passo
que tantas vezes adiei.

Se tiver de cair,
cairei.

Se tiver de começar de novo,
começarei.

Mas pelo menos saberei
que fui eu quem escolheu
não ficar preso
ao lugar onde o medo
me queria manter.

Talvez seja isto crescer:

não deixar de ter medo,
mas deixar de obedecer-lhe.

E talvez,
do outro lado deste salto,
não esteja a resposta
que procuro há tanto tempo.

Talvez esteja apenas
uma versão de mim
que finalmente descobriu
que viver
também é arriscar-se
a não saber o que vem depois.

quinta-feira, outubro 01, 2026

O Amor É Uma Coisa Estranha


Nunca percebi muito bem
como funciona o amor.

Chega quando não estamos preparados,
fica quando pensamos que já aprendemos,
e desaparece justamente
quando começamos a acreditar
que finalmente sabemos o que fazer.

É estranho.

Às vezes, quero estar perto,
mesmo quando preciso de espaço.
Quero ouvir a tua voz
e, ao mesmo tempo,
tenho medo daquilo que ela pode despertar em mim.

Quero dizer-te tudo,
mas há sentimentos
que parecem maiores do que as palavras.

E então fico calado.

Não porque não sinta.

Talvez porque sinto demasiado.

O amor tem destas coisas.

Faz-me procurar alguém
mesmo quando digo que estou bem sozinho.
Faz-me sorrir para o telemóvel
por causa de uma simples mensagem.
Faz-me reparar em pequenos gestos
que provavelmente nem percebeste que fizeste.

E também me assusta.

Porque quando alguém passa a importar,
passamos a ter alguma coisa a perder.

E eu já perdi.

Talvez por isso
às vezes tente controlar aquilo
que não pode ser controlado.

Tento perceber o que sentes,
o que pensas,
onde isto vai chegar.

Como se o coração
fosse uma equação
que pudesse resolver.

Mas não é.

O amor não explica.

Não avisa.

Não segue regras.

É rir quando devia estar sério,
sentir saudades antes da despedida,
querer fugir e ficar ao mesmo tempo,
ter medo de cair
e ainda assim aproximar-me.

É olhar para alguém
e perceber que, de alguma forma,
essa pessoa começou a fazer parte
dos meus pensamentos,
dos meus planos,
dos meus dias.

Sem pedir licença.

E talvez seja isso
que o torna tão estranho.

O amor não precisa de fazer sentido
para ser verdadeiro.

Talvez eu nunca aprenda
a gostar da maneira certa.

Talvez continue a ter medo,
a duvidar,
a pensar demais
e a complicar aquilo
que podia ser simples.

Mas hoje sei uma coisa:

prefiro sentir esta confusão
a voltar a ser indiferente.

Porque, apesar de todas as contradições,
de todas as dúvidas
e de todas as vezes
em que o coração me assusta,

ainda quero amar.

Ainda quero encontrar alguém
com quem possa ser eu,
sem máscaras,
sem jogos,
sem precisar de fingir
que não me importo.

Porque talvez o amor seja mesmo isto:

uma coisa estranha,
imprevisível,
por vezes assustadora...

mas tão bonita
que, mesmo depois de tudo,
ainda me faz querer tentar.

quarta-feira, setembro 30, 2026

O Meu Céu Cheio de Estrelas


Há pessoas que chegam

e mudam a cor dos dias
sem sequer perceberem.

Tu foste assim.

Chegaste devagar,
sem prometer nada,
e, de repente,
havia mais luz
nos lugares onde eu só via sombra.

Eu não sei explicar
o que acontece comigo
quando penso em ti.

É como se o mundo
ficasse um pouco mais leve.

Como se as noites
deixassem de ser tão longas.

Como se, por alguns instantes,
eu conseguisse esquecer
tudo aquilo que pesa
dentro de mim.

Há qualquer coisa em ti
que me faz querer acreditar.

Acreditar no amanhã.

Acreditar que ainda existem
encontros que não são acaso.

Acreditar que, mesmo depois
de algumas tempestades,
o céu pode voltar
a encher-se de estrelas.

E eu gosto de pensar
que uma dessas estrelas
é tua.

Não porque brilhes
por precisares de alguém
que te ilumine,

mas porque há pessoas
que simplesmente trazem luz
consigo.

Tu és uma delas.

Quando estás perto,
não preciso de grandes palavras.

Basta o teu olhar.

O teu sorriso.

Aquela maneira
como consegues transformar
um momento simples
em algo que eu quero guardar.

Se pudesse pedir alguma coisa
ao universo,

não pediria uma vida perfeita.

Pediria apenas
mais momentos contigo.

Mais conversas
que começam sem propósito
e acabam por ficar
na memória.

Mais risos.

Mais silêncios
que não precisam de ser preenchidos.

Mais noites
em que o tempo parece esquecer-se
de continuar.

Porque descobri
que a felicidade
nem sempre chega
como uma grande explosão.

Às vezes chega assim:

numa pessoa,

num abraço,

numa mensagem inesperada,

num olhar
que nos faz sentir
que estamos exatamente
onde deveríamos estar.

E quando penso em ti,
sinto que o meu céu
fica maior.

Há mais espaço
para sonhar.

Mais espaço
para acreditar.

Mais espaço
para amar.

Não sei quanto tempo
a vida nos dará.

Não sei o que o amanhã
vai trazer.

Mas sei uma coisa:

enquanto estiveres
em algum lugar da minha vida,

haverá sempre
uma estrela acesa
dentro de mim.

E mesmo quando
as nuvens aparecerem,

mesmo quando
os dias forem difíceis,

eu vou lembrar-me
daquilo que senti
quando olhei para ti
e percebi:

há pessoas
que não precisam
de salvar-nos.

Basta existirem
para nos fazer
querer continuar.

E tu,

sem saberes,

tornaste-te
uma dessas pessoas
para mim.

Por isso,
se algum dia
olhares para o céu
e encontrares uma estrela
a brilhar um pouco mais,

pensa que talvez
seja o meu jeito
de te dizer,

à distância,

que ainda acredito
na luz,

nos encontros,

nos sonhos

e em tudo aquilo
que pode nascer
quando duas pessoas
decidem não ter medo
de sentir.

Porque desde que chegaste,

o céu dentro de mim
nunca mais voltou
a ser o mesmo.

terça-feira, setembro 29, 2026

As Sementes Que Ainda Quero Plantar


Eu ainda acredito
que algumas coisas bonitas
começam de forma quase invisível.

Uma palavra.

Um gesto.

Um pouco de ternura
num mundo que tantas vezes
se esquece de ser gentil.

Eu próprio já me cansei
de ver tanta coisa
a nascer do medo,

da raiva,

da indiferença,

como se endurecer o coração
fosse a única maneira
de sobreviver.

Mas eu não quero ser assim.

Quero plantar outra coisa.

Quero deixar no caminho
mais compreensão
do que julgamento,

mais abraços
do que distâncias,

mais esperança
do que desconfiança.

Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.

Talvez algumas feridas
sejam demasiado profundas
para serem curadas
por uma única pessoa.

Mas posso começar
por aquilo que está
ao meu alcance.

Posso escolher
as palavras que digo.

A forma como olho.

A maneira como trato
quem cruza o meu caminho.

Posso ser abrigo
num dia de tempestade.

Posso ser silêncio
quando alguém precisar
apenas de ser ouvido.

Posso estender a mão
sem perguntar
se a pessoa merece.

Porque talvez o amor
não seja apenas
aquilo que sentimos
por alguém especial.

Talvez também seja
aquilo que decidimos
deixar no mundo
depois de passarmos por ele.

E eu quero deixar luz.

Mesmo que seja pequena.

Mesmo que ninguém saiba
que fui eu quem a acendeu.

Quero acreditar
que uma coisa boa
pode gerar outra.

Que um sorriso
pode mudar um dia.

Que uma palavra
pode impedir uma despedida.

Que um gesto de carinho
pode devolver esperança
a alguém que já tinha desistido
de a procurar.

Eu também tenho
as minhas sombras.

Não sou feito apenas
de bondade ou certezas.

Tenho erros.

Tenho cicatrizes.

Tenho dias
em que também me perco.

Mas talvez seja precisamente
por conhecer a escuridão
que hoje dou mais valor
a qualquer pequena luz.

Por isso,
se tiver de escolher
o que quero cultivar,

escolho a esperança.

Escolho o amor.

Escolho a coragem
de continuar a acreditar
nas pessoas,

mesmo depois
de algumas me terem desiludido.

E se amanhã
alguém encontrar
uma pequena semente
no lugar por onde passei,

espero que a plante.

Que a regue.

Que tenha paciência
com os dias em que nada parece acontecer.

Porque algumas das coisas
mais bonitas da vida
crescem longe dos nossos olhos.

Talvez um dia
essas sementes floresçam
num lugar que nunca conhecerei.

E isso será suficiente para mim.

Porque já não preciso
de ver o resultado
de tudo aquilo que faço.

Quero apenas saber
que, enquanto estive aqui,

não deixei o mundo
exatamente igual
à forma como o encontrei.

Se consegui tornar
um único coração
um pouco mais leve,

se consegui devolver
um pouco de esperança
a alguém,

se consegui fazer
uma pessoa acreditar
que ainda vale a pena amar,

então já terá valido a pena.

E é assim que quero seguir:

com as mãos cheias
de sementes,

o coração aberto
ao inesperado

e a certeza
de que ainda há coisas bonitas
por nascer.

Talvez o futuro
não esteja escrito.

Talvez dependa também
daquilo que decidimos plantar hoje.

E eu,

se puder escolher,

vou plantar amor.

Vou plantar esperança.

Vou plantar aquilo
que gostaria de encontrar
quando olhar para o mundo
amanhã.

segunda-feira, setembro 28, 2026

O Amor Também Precisa de Água


Eu acredito que o amor
se parece muito com uma planta.

Não basta plantá-lo
e esperar que cresça sozinho.

É preciso cuidar.

Dar-lhe tempo.

Aproximar-se todos os dias
e perceber quando as suas folhas
começam a perder a cor.

Porque também o amor
tem sede.

Sede de palavras.

De atenção.

De pequenos gestos
que parecem insignificantes,
mas dizem:

“Estou aqui.”

Eu sei que a vida
nem sempre deixa espaço
para cuidar de tudo.

Há dias cansados.

Há preocupações.

Há silêncios que se prolongam
mais do que deviam.

Mas aprendi
que aquilo que amamos
não pode viver eternamente
daquilo que demos no passado.

Uma planta não sobrevive
porque foi regada ontem.

E um amor também não.

Precisa de presença.

Precisa de carinho.

Precisa daquela vontade
de continuar a escolher
a mesma pessoa
mesmo depois de o encanto inicial
se transformar em rotina.

Eu não quero um amor
que sobreviva por obrigação.

Quero um amor
que seja cuidado
porque ainda existe vontade
de o ver florescer.

Quero perguntar:

“Como estás?”

E realmente querer saber.

Quero ouvir
mesmo quando as palavras
são difíceis.

Quero abraçar
quando não houver respostas.

Quero estar presente
não apenas quando tudo
é bonito e fácil,

mas também quando houver
folhas caídas
e dias sem sol.

Porque sei que o amor
não morre apenas
por causa de uma grande tempestade.

Às vezes morre devagar,

num copo de água
que nunca chega,

num abraço adiado,

num “depois falamos”
que se transforma
em distância.

E eu não quero isso.

Se algum dia
as folhas do nosso amor
começarem a baixar,

quero perceber.

Quero aproximar-me.

Quero regar.

Quero cuidar.

Quero lembrar-me
de que amar alguém
não é apenas sentir.

É também fazer.

Todos os dias.

Mesmo nos pequenos detalhes.

Mesmo quando ninguém vê.

Porque uma flor pode ser linda
quando começa a abrir,

mas é o cuidado constante
que a mantém viva.

E eu quero ser esse cuidado.

Não quero prometer
que nunca haverá dias difíceis.

Quero prometer
que, quando chegarem,

não vou simplesmente
virar as costas.

Vou ficar.

Vou tentar.

Vou procurar a água
quando a terra estiver seca.

Vou procurar a luz
quando tudo parecer escuro.

Porque, para mim,

amar é isto:

não deixar morrer
aquilo que um dia
nos fez florescer.

E se depender de mim,

vou continuar a regar
o nosso amor,

até que as raízes
se tornem tão profundas

que nem o vento,

nem a distância,

nem os dias difíceis

consigam arrancá-lo

do lugar onde escolhi
plantá-lo:

dentro de mim.

domingo, setembro 27, 2026

Depois da Ponte


Durante demasiado tempo
tentei manter de pé
aquilo que já estava a cair.

Segurei pontes
construídas com promessas,
palavras partidas
e silêncios
que ninguém quis explicar.

Continuei a atravessá-las
mesmo quando cada passo
me dizia
que já não havia caminho
para o outro lado.

Fiquei.

Tentei compreender.

Perdoei mais vezes
do que devia.

E, cada vez que alguma coisa
me quebrava por dentro,
convencia-me de que era preciso
mais um esforço.

Mais uma oportunidade.

Mais uma tentativa.

Até perceber
que algumas pontes
não existem para nos levar
a algum lugar.

Existem apenas
para nos manter presos
ao lugar de onde tentamos sair.

Foi então que parei.

Olhei para trás
e vi tudo aquilo
que carregava comigo:

culpas que não eram minhas,
palavras que nunca devia
ter aceitado,
promessas que nunca foram cumpridas
e uma versão de mim
que passou demasiado tempo
a tentar ser suficiente
para alguém.

E percebi
que não precisava
de reconstruir aquela ponte.

Precisava de a deixar ir.

Não por ódio.

Não por vingança.

Mas porque finalmente
entendi que seguir em frente
também significa
saber quando parar de voltar.

Há despedidas
que parecem destruição,

mas são apenas
a forma que a vida encontra
de abrir espaço
para começarmos de novo.

Por isso, desta vez,
não vou olhar para trás
à procura de uma razão
para regressar.

Vou levar comigo
apenas aquilo que aprendi.

As cicatrizes.

A força.

A coragem
de ter sobrevivido
a tudo aquilo
que um dia pensei
que me destruiria.

E deixarei o resto
do outro lado.

Sem ressentimento.

Sem promessas.

Sem a necessidade
de provar nada a ninguém.

Porque descobri
que a minha paz
vale mais do que qualquer ponte
que me obrigue
a voltar ao passado.

Talvez um dia
olhe para aquele lugar
e já não sinta dor.

Talvez apenas gratidão
por ter tido coragem
de partir.

E quando isso acontecer,

vou perceber
que não perdi um caminho.

Ganhei liberdade.

Ganhei espaço
para respirar.

Ganhei a possibilidade
de construir algo novo
sem carregar
as ruínas do que ficou para trás.

A ponte pode desaparecer.

As memórias podem permanecer.

Mas eu continuo.

E desta vez,

não vou atravessar
para voltar ao passado.

Vou seguir em frente

até encontrar
um lugar onde não precise
de me perder
para conseguir ficar.

sábado, setembro 26, 2026

Só Mais Uma Noite


Há noites que parecem
ter sido feitas
para esquecer o relógio.

Aquelas em que o mundo
fica lá fora,

e tudo o que importa
é o instante
que estamos a viver.

Se eu pudesse escolher,
guardava uma noite contigo.

Sem pressa.

Sem perguntas.

Sem pensar no amanhã.

Apenas nós,
a rir de coisas sem importância,
a trocar olhares
que dizem muito mais
do que qualquer palavra.

Queria perder-me
nas tuas conversas,

na maneira como sorris,

naquela proximidade
que faz o coração
esquecer por alguns segundos
tudo o que existe à volta.

Talvez fosse só uma noite.

Mas há noites
que conseguem ficar
para uma vida inteira.

E eu sei que, contigo,
não precisaria de grandes planos.

Bastava uma música,

uma janela aberta,

a cidade iluminada lá fora

e o teu corpo perto do meu.

O resto podia esperar.

Queria sentir aquele momento
sem medo de que acabasse.

Porque às vezes
a felicidade não precisa
de promessas eternas.

Precisa apenas
de alguém que queira ficar
mais um pouco.

E eu ficaria.

Mesmo depois de a música terminar.

Mesmo quando a madrugada
começasse a nascer
por detrás das janelas.

Ficaria mais alguns minutos,

só para prolongar
a sensação de te ter perto.

Talvez te dissesse
que não quero que esta noite termine.

Talvez não dissesse nada.

Talvez apenas
te olhasse,

porque há momentos
em que falar
é estragar aquilo
que o silêncio está a dizer.

E se amanhã
tudo voltasse ao normal,

se cada um tivesse
de regressar à sua vida,

eu levaria comigo
esta noite.

O teu sorriso.

O teu olhar.

A tua presença.

A sensação de que,
por algumas horas,

o mundo inteiro
coube entre nós.

Por isso,
se me perguntasses
o que eu queria,

não pediria para sempre.

Pediria apenas
mais uma noite.

Uma noite sem medo,

sem distância,

sem passado,

sem futuro.

Só tu e eu,

a viver o presente
como se o tempo
tivesse finalmente aprendido
a parar.

E talvez,
quando o dia chegasse,

eu percebesse
que não precisava
de mais nada.

Porque algumas noites
não são apenas noites.

São aqueles raros momentos
em que a vida
nos lembra

como é bom

sentir.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Voltar a Construir


Há coisas em mim
que já não reconheço.

Pequenas partes
que foram ficando pelo caminho,

entre escolhas que fiz,
palavras que calei
e sonhos que deixei
à espera de um momento melhor.

Olho para aquilo que fui
e percebo que algumas versões de mim
precisavam mesmo de desaparecer.

Não porque fossem fracas,

mas porque já não sabiam
como continuar a viver
sem carregar tudo às costas.

Às vezes é preciso
deixar uma estrutura cair
para perceber
o que realmente merece
ser reconstruído.

E eu estou nesse lugar.

Entre os destroços
daquilo que já não quero ser
e a vontade imensa
de começar outra vez.

Não quero juntar os pedaços
da mesma maneira.

Não quero reconstruir
as mesmas paredes
nem voltar a abrir
as mesmas portas.

Quero espaço.

Ar.

Luz.

Quero uma vida
onde possa respirar
sem estar constantemente
a tentar corresponder
àquilo que esperam de mim.

Talvez algumas coisas
tenham de ser desfeitas.

Algumas certezas.

Alguns medos.

Alguns laços
que confundia com destino.

Algumas promessas
que fiz a mim próprio
e que já não fazem sentido.

E não tenho medo
de admitir isso.

Aprendi que mudar
não significa apagar
quem fui.

Significa olhar para trás
e escolher conscientemente
o que merece continuar comigo.

Há memórias
que guardarei.

Há pessoas
que continuarão
a ter um lugar em mim.

Há cicatrizes
que não quero esconder.

Mas já não quero
que o passado
decida o tamanho
do meu futuro.

Quero reconstruir-me
com aquilo que sou agora.

Com as minhas imperfeições.

Com as minhas dúvidas.

Com aquilo que aprendi
quando tudo parecia ruir.

E talvez seja essa
a verdadeira liberdade:

não precisar de voltar
a ser quem era
só porque foi essa pessoa
que os outros conheceram.

Posso mudar.

Posso recomeçar.

Posso deixar cair
o que já não me sustenta.

E posso construir
algo que finalmente
tenha a minha forma.

Não sei exatamente
como será o amanhã.

Mas, pela primeira vez,
isso não me assusta.

Porque já não preciso
de ter todas as respostas.

Preciso apenas
de continuar a escolher
aquilo que me faz inteiro.

Se for necessário
desmontar tudo,

eu desmonto.

Se for preciso
começar com uma única pedra,

começo.

E, desta vez,

cada coisa que eu construir
terá uma razão:

não para impressionar alguém,

não para esconder as minhas falhas,

não para parecer forte,

mas para criar
um lugar dentro de mim
onde eu possa finalmente
sentir-me em casa.

Porque talvez
a minha maior transformação
não seja tornar-me
uma pessoa diferente.

Talvez seja, finalmente,

ter coragem

de ser

quem sempre fui.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Preciso de Algo Assim


Há dias em que sinto
que preciso de qualquer coisa
que me faça esquecer
a monotonia dos dias iguais.

Não procuro uma fuga.

Procuro uma sensação
que me acorde por dentro,
que faça o coração acelerar
e me devolva aquela vontade
de viver sem pensar demasiado.

Preciso de algo
que não tenha efeitos secundários,
que não me roube a lucidez,
mas que consiga transformar
um dia comum
num momento impossível de esquecer.

E então apareces tu.

Com esse sorriso
que desarma as minhas defesas,
com esse olhar
que parece saber exatamente
onde tocar
sem sequer me tocar.

Talvez sejas tu
aquilo que eu procurava
sem saber que procurava.

Não uma cura
para aquilo que me falta,

mas uma razão
para deixar de procurar.

Porque contigo
não preciso de esquecer o mundo.

Quero senti-lo.

Quero rir mais alto,
ficar acordado até tarde,
inventar planos sem sentido,
perder-me em conversas
que nunca queremos terminar.

Quero aquela vertigem
que começa num olhar
e termina num sorriso.

Quero a tua presença
nos meus dias bons
e nos dias em que tudo pesa.

Quero sentir
que ainda existe dentro de mim
uma parte capaz de se surpreender,
de desejar,
de sonhar
e de se apaixonar.

E se o amor tem mesmo
alguma espécie de loucura,

então talvez eu não queira
ser curado.

Quero apenas
continuar a sentir
esta coisa estranha e bonita
que acontece quando penso em ti.

Porque há pessoas
que nos fazem perder o equilíbrio.

E há pessoas
que nos fazem perceber
que nunca estivemos
tão vivos.

Tu és assim.

Não preciso de outra coisa.

Preciso apenas
desse instante em que apareces,

desse sorriso que fica comigo
mesmo depois de partires,

e dessa sensação
de que, por alguns momentos,

o mundo inteiro
fica exatamente
onde devia estar.

E talvez seja isso
que eu sempre procurei:

não algo que me faça
esquecer a vida,

mas alguém
que me faça

querer vivê-la

com muito mais intensidade.

quarta-feira, setembro 23, 2026

Se Pudesses Ouvir-me


Há perguntas
que ficam para sempre
sem encontrar resposta.

Há ausências
que não se explicam
com palavras,

porque existem despedidas
que deixam no coração
um silêncio impossível de preencher.

Às vezes penso
no que diria
se pudesse falar contigo
mais uma vez.

Talvez não encontrasse
as palavras certas.

Talvez apenas te abraçasse
e ficasse em silêncio,

porque há sentimentos
que nenhuma frase
consegue carregar.

Pergunto-me
se me reconhecerias,

se saberias
quanto pensei em ti,

quantas vezes
o teu nome atravessou
os meus pensamentos
sem que ninguém percebesse.

A vida continuou.

Os dias passaram.

As pessoas sorriram,

os relógios não pararam,

e o mundo pareceu esquecer
que, algures dentro de mim,
ficou um lugar
onde o tempo nunca avançou.

Aprendi a viver
com a saudade.

Não porque tenha deixado
de doer,

mas porque percebi
que amar alguém
também pode significar
carregar a sua ausência
com ternura.

Há momentos
em que olho para o céu
e imagino que existe
alguma forma de distância
onde ainda nos podemos encontrar.

Talvez num sonho.

Talvez numa memória.

Talvez naquele instante
em que o coração aperta
sem razão aparente
e, por um segundo,
parece que estás perto.

Se pudesses ouvir-me,

dir-te-ia que não esqueci.

Que algumas pessoas
não desaparecem verdadeiramente.

Mudam de lugar.

Deixam de estar
ao nosso lado

e passam a viver
dentro de nós.

Nas pequenas coisas.

Num sorriso.

Numa música.

Num céu ao entardecer.

Num momento inesperado
em que a saudade
chega sem avisar.

E talvez seja essa
a única maneira
de continuar a amar
quem já não podemos abraçar:

guardar a sua existência
naquilo que somos.

Hoje sigo em frente,

mas não te deixo para trás.

Levo comigo
aquilo que me ensinaste,

aquilo que senti,

aquilo que nunca conseguirei explicar
completamente.

E quando a saudade
se torna demasiado pesada,

fecho os olhos
e imagino que, algures,
onde não existem distâncias
nem despedidas,

o nosso reencontro
já aconteceu.

Até lá,

continuarei a viver.

A sorrir quando conseguir.

A amar.

A guardar-te
no lugar mais silencioso
do meu coração.

Porque há pessoas
que partem demasiado cedo,

mas deixam uma luz
que o tempo não consegue apagar.

E enquanto essa luz
continuar dentro de mim,

uma parte de ti
continuará a caminhar comigo,

mesmo que os meus olhos
já não te possam encontrar.

terça-feira, setembro 22, 2026

O Abrigo Que Procurei


Há lugares onde nos escondemos

sem sequer perceber
que estamos a fugir.

Eu conheci esse lugar.

Era feito de promessas,
de palavras bonitas,
de braços que pareciam seguros
e de silêncios
que eu confundia com paz.

Queria apenas sentir
que alguém ficaria.

Que, quando o mundo pesasse,
haveria um lugar
onde pudesse pousar o coração.

E talvez tenha pedido demais
a quem não sabia
como me dar aquilo
de que eu precisava.

Confundi proximidade
com presença.

Confundi palavras
com certezas.

Confundi um abrigo
com uma prisão
onde, aos poucos,
deixei de saber quem era.

Havia calor,
mas faltava verdade.

Havia carinho,
mas havia também
uma distância que eu não conseguia atravessar.

E eu permanecia ali,

a tentar encontrar
num olhar
a segurança
que nunca chegava por inteiro.

Até perceber
que nenhum abrigo
pode ser construído
sobre o medo de perder alguém.

Eu não quero mais
um lugar onde tenha
de esconder aquilo que sinto
para continuar a ser aceite.

Não quero mãos
que me segurem
apenas quando lhes convém.

Não quero promessas
que soem bonitas
mas desapareçam
quando chega a tempestade.

Quero algo simples.

Alguém que fique
sem eu ter de pedir.

Um abraço
onde não precise
de explicar a minha dor.

Um olhar
que não me faça duvidar
do lugar que ocupo.

Quero poder chegar
com todas as minhas imperfeições
e ainda assim
sentir que pertenço.

E também quero aprender
a ser esse abrigo para mim.

A não abandonar-me
quando alguém decide partir.

A não diminuir aquilo que sinto
para caber na vida de outra pessoa.

A não chamar amor
àquilo que me faz
sentir sozinho.

Talvez seja essa
a parte mais difícil:

aceitar que nem todo o lugar
que nos protege
é um lugar onde devemos ficar.

Algumas portas
precisam de ser fechadas.

Algumas mãos
precisam de ser libertadas.

Alguns sonhos
precisam de deixar
de ser nossos.

Não porque deixámos de sentir,

mas porque finalmente
aprendemos a distinguir
amor de necessidade.

Hoje, se procuro abrigo,
não procuro paredes.

Procuro verdade.

Procuro tranquilidade.

Procuro alguém
com quem possa existir
sem representar
uma versão mais fácil
de mim.

E se esse lugar
ainda não existir,

eu espero.

Enquanto isso,
construo-o dentro de mim.

Pedra por pedra.

Com aquilo que aprendi.

Com aquilo que sobrevivi.

Com todas as partes
que pensei ter perdido.

Porque já não quero
um abrigo que apenas
me esconda da chuva.

Quero um lugar
onde possa abrir as janelas,
deixar entrar a luz
e respirar profundamente,

sem medo
de que o céu volte a cair.

E quando alguém entrar
nesse lugar,

quero que seja
para ficar por escolha,

não por necessidade.

Porque agora sei:

um verdadeiro abrigo
não é aquele que nos impede
de enfrentar o mundo.

É aquele que nos dá força
para sermos nós próprios
quando voltamos
a sair pela porta.