sábado, agosto 01, 2026

Quando Voltei a Sentir


Durante muito tempo
aprendi a vestir sorrisos
que não eram meus.

A dizer "está tudo bem",
mesmo quando o silêncio
pesava mais do que as palavras.

Habituei-me a ser forte.

Tão forte
que deixei de perceber
onde terminava a coragem
e começava o cansaço.

Vivi dias inteiros
como quem atravessa a chuva
sem sentir as gotas.

Não porque não existissem.

Mas porque o coração,
de tanto se proteger,
esqueceu-se de as ouvir.

Até que chegaste.

Sem prometer milagres.

Sem tentar salvar-me.

Apenas permaneceste.

E foi essa simplicidade
que abriu uma pequena brecha
na muralha que construí durante anos.

Descobri, então,
que sentir também dói.

Mas não sentir...
dói muito mais.

Porque a vida
não foi feita para ser suportada.

Foi feita para ser vivida.

Com todas as alegrias.

Com todos os medos.

Com todas as cicatrizes.

Hoje já não procuro parecer invencível.

Prefiro ser verdadeiro.

Se cair, levanto-me.

Se errar, aprendo.

Se amar, que seja por inteiro.

Porque só quem aceita
a própria fragilidade
descobre a força
que sempre existiu dentro de si.

E talvez esse seja
o maior recomeço de todos:

deixar de viver adormecido

para voltar, finalmente,

a sentir cada batida do coração

como se fosse a primeira.

sexta-feira, julho 31, 2026

Depois do Peso


Há um instante na vida

em que deixamos de fugir

ao reflexo que nos espera

do outro lado do espelho.

Não para procurar culpados.

Nem para apagar o passado.

Mas para aceitar

que cada escolha

deixou uma marca

na pessoa que hoje somos.

Carreguei arrependimentos

como quem transporta pedras

num caminho já demasiado longo.

Pensei que o tempo

fosse capaz de apagar

os erros que cometi.

Mas o tempo

não apaga.

Ensina.

Mostra-nos

que a verdadeira mudança

não nasce do esquecimento,

mas da coragem

de fazer diferente.

Hoje não peço

que me absolvam.

Nem espero

que todas as feridas

desapareçam.

Há cicatrizes

que merecem permanecer,

porque nos lembram

da distância

entre quem fomos

e quem escolhemos ser.

Se magoei alguém,

que as minhas próximas palavras

saibam cuidar.

Se falhei,

que os meus próximos passos

sejam mais firmes.

Se deixei o medo

guiar o meu coração,

que seja o amor

a indicar-me o caminho daqui em diante.

A vida concede-nos

um privilégio silencioso:

o de recomeçar

sem negar aquilo que vivemos.

Porque ninguém muda

ao apagar o passado.

Muda quando o transforma

na raiz

de um futuro mais verdadeiro.

E, quando o dia terminar,

quero olhar para trás

sem orgulho das minhas quedas,

mas com gratidão

pela força que encontrei

para me levantar.

Pois aquilo que fiz

pertence ao ontem.

Aquilo que escolho fazer hoje

é o que verdadeiramente

escreve a minha história.

quinta-feira, julho 30, 2026

Aquilo Que Permanece


Passei a vida
a contar os dias,

como se o tempo
pudesse explicar tudo.

Corri atrás de objetivos,

de certezas,

de respostas

que nunca chegaram exatamente
como as imaginei.

Aprendi cedo
que nem todos os esforços
trazem a recompensa esperada.

Que há portas
que permanecem fechadas,

por mais força
que lhes dediquemos.

E, durante algum tempo,

isso pareceu derrotar-me.

Mas um dia percebi

que a vida não se mede apenas

pelas metas alcançadas.

Mede-se pelas pessoas

que mudaram o nosso caminho,

pelos sorrisos que provocámos,

pelas mãos que segurámos

quando alguém mais precisava.

Porque, no fim,

os relógios param.

As listas desaparecem.

As vitórias tornam-se lembranças.

E aquilo que parecia tão urgente

perde importância.

O que permanece

não são os dias difíceis.

É a coragem

de nunca deixarmos de acreditar.

É a capacidade

de recomeçar

mesmo depois de todas as quedas.

É encontrar alguém

que nos recorda

que ainda vale a pena sonhar,

quando já quase nos tínhamos esquecido.

Talvez o tempo

leve muitas coisas.

Mas nunca conseguirá levar

aquilo que vivemos com verdade.

Porque algumas marcas

não pertencem ao passado.

Transformam-se na força silenciosa

que nos acompanha

em todos os dias

que ainda estão por chegar.

quarta-feira, julho 29, 2026

Quando Caem as Máscaras


Passámos tanto tempo
a decorar papéis
que esquecemos o som
da nossa própria voz.

Sorrimos onde doía.

Calámo-nos
quando o coração gritava.

E chamámos força
ao hábito de esconder
tudo aquilo que nos tornava humanos.

Há um momento, porém,

em que nenhuma máscara resiste.

O silêncio pesa.

O olhar denuncia.

E a verdade encontra sempre
uma pequena fenda
por onde consegue respirar.

Foi aí que percebi

que as maiores batalhas
nunca aconteceram lá fora.

Aconteceram dentro de mim.

Entre aquilo que mostrava ao mundo

e aquilo que sempre fui.

É estranho...

Passamos a vida
com medo de sermos rejeitados,

quando, afinal,

o maior abandono
é aquele que fazemos
de nós próprios.

Talvez não exista um final perfeito.

Talvez algumas histórias
tenham sido feitas
apenas para nos ensinar.

Mas, quando o último disfarce cai,

fica apenas o essencial:

um coração cansado,

algumas cicatrizes,

e uma coragem nova,

a de nunca mais trocar

a verdade

pela aparência.

Porque há derrotas

que nos devolvem a liberdade.

E há despedidas

que marcam o verdadeiro começo

de quem finalmente

aprendeu a viver

sem máscaras.

terça-feira, julho 28, 2026

Porque o Coração Não Pede Licença


Sempre ouvi dizer
que o coração devia ser prudente.

Pensar antes de sentir.

Medir antes de confiar.

Esperar antes de acreditar.

Tentei.

Mas nunca fui capaz
de ensinar o meu coração
a viver com regras.

Ele escolhe os seus caminhos
como o vento escolhe o mar.

Sem pedir autorização.

Sem explicar porquê.

Foi assim contigo.

Não houve planos.

Não houve estratégias.

Apenas um dia comum
que, sem aviso,
se tornou inesquecível.

Desde então,
dou por mim a sorrir sozinho,
a escrever sem procurar palavras,
a encontrar-te nas pequenas coisas
que antes passavam despercebidas.

Não porque precise.

Mas porque és,
sem saberes,
a parte mais bonita
dos meus pensamentos.

Sei que a vida
nem sempre segue o rumo que desejamos.

Sei que há distâncias,
medos,
silêncios
e momentos em que tudo parece incerto.

Mesmo assim,
não quero viver a fugir daquilo que sinto.

Prefiro um coração verdadeiro
a uma vida inteira de arrependimentos.

Porque a felicidade
não nasce quando tudo é perfeito.

Nasce quando temos coragem
de sermos exatamente quem somos.

E eu...

sou apenas alguém
que descobriu em ti
um motivo para acreditar
que a liberdade mais bonita
é deixar o coração escolher,

sem lhe pedir explicações.

segunda-feira, julho 27, 2026

Para Além do Sonho


Adormeci a sonhar contigo.

E, curiosamente,
o sonho não terminou
quando fechei os olhos.

Continuou.

Vi-nos a rir,
a brincar como duas crianças
que descobriram
que a felicidade mora nas coisas simples.

Sem pressa.

Sem máscaras.

Sem medo.

Apenas dois corações
a desfrutarem da paz
de estarem juntos.

Tudo parecia tão sereno,
tão natural,
que por momentos
esqueci-me de que estava a sonhar.

Depois acordei.

Sorri.

E foi então que percebi
que o mais bonito
não tinha ficado preso ao sonho.

Continuava ali.

Porque tu não és
uma ilusão inventada pela noite.

És alguém
que conseguiu transformar
os meus dias,
os meus pensamentos
e até os meus sonhos.

E talvez seja por isso
que já não sei
onde acaba o sonho
e começa a realidade.

Porque, desde que entraste na minha vida,

até acordar
passou a ser
uma forma bonita
de continuar a sonhar.

domingo, julho 26, 2026

Porque?


Porque apareces
em tudo o que não te procura?

Numa letra esquecida,
numa canção,
num livro aberto,
num desenho por terminar.

Porque um simples par de óculos,
um cabelo despenteado
ou uma peça de roupa
me fazem sorrir sem querer?

E porque este aperto estranho,
que ao mesmo tempo inquieta
e aquece o coração?

Talvez porque há pessoas
que deixam de estar apenas na memória...

e passam a viver
em tudo aquilo que os nossos olhos veem.