Há dias
em que o espelho
me devolve um estranho.
Alguém
que conhece o meu nome,
mas já não reconhece
a paz que um dia habitou
o seu olhar.
Dentro de mim
vivem vozes antigas.
Feitas de medo.
De culpa.
De dúvidas
que regressam
quando a noite
fica demasiado silenciosa.
Tentei fugir.
Corri para longe
de tudo aquilo
que me fazia estremecer.
Mas descobri
que não existe distância
capaz de separar
um homem
das sombras
que transporta no peito.
Elas seguem-nos.
Escondem-se
entre os pensamentos.
Vestem-se
com as nossas inseguranças.
E convencem-nos
de que nunca seremos
suficientes.
Durante muito tempo
acreditei nelas.
Até perceber
que o medo
não desaparece
quando o combatemos.
Enfraquece
quando deixamos
de lhe obedecer.
Foi então
que parei de lutar
contra mim próprio.
Olhei de frente
para as minhas cicatrizes,
aceitei as minhas falhas
e compreendi
que nenhuma delas
definia quem eu era.
Porque aquilo
que realmente nos transforma
não é a ausência
da escuridão.
É a coragem
de acender uma luz
mesmo quando tudo
parece perdido.
Hoje sei
que ainda existem dias
em que volto a cair.
Em que as velhas vozes
tentam recuperar
o lugar que tinham.
Mas já não lhes pertenço.
Aprendi
que a verdadeira liberdade
não nasce
quando deixamos
de sentir medo.
Nasce
quando o coração
escolhe continuar,
mesmo com ele.
E é nesse instante,
entre a sombra
e a esperança,
que descubro,
uma vez mais,
quem realmente sou.






