Há dias em que acordo
e sinto que o mundo
pesa mais do que devia.
Sorrio,
respondo que estou bem,
continuo a fazer
aquilo que esperam de mim,
mas há uma parte de mim
que só queria parar
por um instante
e respirar.
Aprendi a esconder o cansaço
atrás de palavras tranquilas.
A dizer “não é nada”
quando, por dentro,
há demasiado a acontecer.
Talvez porque sempre pensei
que precisava de ser forte.
Que não podia mostrar
quando estava cansado,
quando tinha medo,
quando precisava simplesmente
de alguém que dissesse:
“Fica aqui.
Não tens de enfrentar tudo sozinho.”
Hoje começo a perceber
que também tenho direito
a não estar bem.
Tenho direito
a abrandar.
A fechar os olhos
e deixar o mundo esperar.
A aceitar que algumas feridas
não desaparecem
porque fingimos que não existem.
E, quando a vida me parece
demasiado pesada,
lembro-me de que já atravessei
noites que pareciam não ter fim.
Também pensei, algumas vezes,
que não conseguiria.
E, no entanto,
a manhã chegou.
Sempre chegou.
Talvez seja isso
que preciso de recordar
nos dias mais difíceis:
não tenho de resolver
a minha vida inteira hoje.
Só preciso
de chegar ao amanhã.
Um passo.
Uma respiração.
Mais uma manhã.
Mais uma oportunidade
de voltar a sentir
aquilo que agora parece distante.
E se alguém que amo
estiver a passar
por uma tempestade,
quero que saiba
que não precisa de esconder
a dor de mim.
Pode pousar o peso
dos seus ombros.
Pode chorar.
Pode ficar em silêncio.
Eu fico.
Porque sei o que é
precisar de alguém
e não saber como pedir.
E talvez cuidar
também seja isto:
não tentar apagar
a escuridão de quem amamos,
mas permanecer ao seu lado
até que os olhos
se habituem novamente
à luz.
Por isso,
se hoje não conseguires sorrir,
não faz mal.
Se precisares de tempo,
eu espero.
Se precisares de silêncio,
eu fico em silêncio contigo.
E se amanhã
for apenas um pouco melhor,
já será suficiente.
Porque acredito
que há dores
que passam devagar,
corações
que precisam de tempo,
e pessoas
que, mesmo cansadas,
ainda conseguem
voltar a florescer.
Eu também estou a aprender isso.
A cuidar de mim.
A não exigir
que o coração seja forte
todos os dias.
E, enquanto aprendo,
continuo.
Porque ainda há manhãs
que não conheço,
abraços que ainda vou dar,
sorrisos que ainda vou descobrir
e momentos felizes
que ainda não chegaram.
E eu quero estar aqui
quando chegarem.






