quarta-feira, setembro 23, 2026

Se Pudesses Ouvir-me


Há perguntas
que ficam para sempre
sem encontrar resposta.

Há ausências
que não se explicam
com palavras,

porque existem despedidas
que deixam no coração
um silêncio impossível de preencher.

Às vezes penso
no que diria
se pudesse falar contigo
mais uma vez.

Talvez não encontrasse
as palavras certas.

Talvez apenas te abraçasse
e ficasse em silêncio,

porque há sentimentos
que nenhuma frase
consegue carregar.

Pergunto-me
se me reconhecerias,

se saberias
quanto pensei em ti,

quantas vezes
o teu nome atravessou
os meus pensamentos
sem que ninguém percebesse.

A vida continuou.

Os dias passaram.

As pessoas sorriram,

os relógios não pararam,

e o mundo pareceu esquecer
que, algures dentro de mim,
ficou um lugar
onde o tempo nunca avançou.

Aprendi a viver
com a saudade.

Não porque tenha deixado
de doer,

mas porque percebi
que amar alguém
também pode significar
carregar a sua ausência
com ternura.

Há momentos
em que olho para o céu
e imagino que existe
alguma forma de distância
onde ainda nos podemos encontrar.

Talvez num sonho.

Talvez numa memória.

Talvez naquele instante
em que o coração aperta
sem razão aparente
e, por um segundo,
parece que estás perto.

Se pudesses ouvir-me,

dir-te-ia que não esqueci.

Que algumas pessoas
não desaparecem verdadeiramente.

Mudam de lugar.

Deixam de estar
ao nosso lado

e passam a viver
dentro de nós.

Nas pequenas coisas.

Num sorriso.

Numa música.

Num céu ao entardecer.

Num momento inesperado
em que a saudade
chega sem avisar.

E talvez seja essa
a única maneira
de continuar a amar
quem já não podemos abraçar:

guardar a sua existência
naquilo que somos.

Hoje sigo em frente,

mas não te deixo para trás.

Levo comigo
aquilo que me ensinaste,

aquilo que senti,

aquilo que nunca conseguirei explicar
completamente.

E quando a saudade
se torna demasiado pesada,

fecho os olhos
e imagino que, algures,
onde não existem distâncias
nem despedidas,

o nosso reencontro
já aconteceu.

Até lá,

continuarei a viver.

A sorrir quando conseguir.

A amar.

A guardar-te
no lugar mais silencioso
do meu coração.

Porque há pessoas
que partem demasiado cedo,

mas deixam uma luz
que o tempo não consegue apagar.

E enquanto essa luz
continuar dentro de mim,

uma parte de ti
continuará a caminhar comigo,

mesmo que os meus olhos
já não te possam encontrar.

terça-feira, setembro 22, 2026

O Abrigo Que Procurei


Há lugares onde nos escondemos

sem sequer perceber
que estamos a fugir.

Eu conheci esse lugar.

Era feito de promessas,
de palavras bonitas,
de braços que pareciam seguros
e de silêncios
que eu confundia com paz.

Queria apenas sentir
que alguém ficaria.

Que, quando o mundo pesasse,
haveria um lugar
onde pudesse pousar o coração.

E talvez tenha pedido demais
a quem não sabia
como me dar aquilo
de que eu precisava.

Confundi proximidade
com presença.

Confundi palavras
com certezas.

Confundi um abrigo
com uma prisão
onde, aos poucos,
deixei de saber quem era.

Havia calor,
mas faltava verdade.

Havia carinho,
mas havia também
uma distância que eu não conseguia atravessar.

E eu permanecia ali,

a tentar encontrar
num olhar
a segurança
que nunca chegava por inteiro.

Até perceber
que nenhum abrigo
pode ser construído
sobre o medo de perder alguém.

Eu não quero mais
um lugar onde tenha
de esconder aquilo que sinto
para continuar a ser aceite.

Não quero mãos
que me segurem
apenas quando lhes convém.

Não quero promessas
que soem bonitas
mas desapareçam
quando chega a tempestade.

Quero algo simples.

Alguém que fique
sem eu ter de pedir.

Um abraço
onde não precise
de explicar a minha dor.

Um olhar
que não me faça duvidar
do lugar que ocupo.

Quero poder chegar
com todas as minhas imperfeições
e ainda assim
sentir que pertenço.

E também quero aprender
a ser esse abrigo para mim.

A não abandonar-me
quando alguém decide partir.

A não diminuir aquilo que sinto
para caber na vida de outra pessoa.

A não chamar amor
àquilo que me faz
sentir sozinho.

Talvez seja essa
a parte mais difícil:

aceitar que nem todo o lugar
que nos protege
é um lugar onde devemos ficar.

Algumas portas
precisam de ser fechadas.

Algumas mãos
precisam de ser libertadas.

Alguns sonhos
precisam de deixar
de ser nossos.

Não porque deixámos de sentir,

mas porque finalmente
aprendemos a distinguir
amor de necessidade.

Hoje, se procuro abrigo,
não procuro paredes.

Procuro verdade.

Procuro tranquilidade.

Procuro alguém
com quem possa existir
sem representar
uma versão mais fácil
de mim.

E se esse lugar
ainda não existir,

eu espero.

Enquanto isso,
construo-o dentro de mim.

Pedra por pedra.

Com aquilo que aprendi.

Com aquilo que sobrevivi.

Com todas as partes
que pensei ter perdido.

Porque já não quero
um abrigo que apenas
me esconda da chuva.

Quero um lugar
onde possa abrir as janelas,
deixar entrar a luz
e respirar profundamente,

sem medo
de que o céu volte a cair.

E quando alguém entrar
nesse lugar,

quero que seja
para ficar por escolha,

não por necessidade.

Porque agora sei:

um verdadeiro abrigo
não é aquele que nos impede
de enfrentar o mundo.

É aquele que nos dá força
para sermos nós próprios
quando voltamos
a sair pela porta.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Quando já não cabe mais


Durante muito tempo
fui guardando tudo dentro de mim.

As palavras que não disse.

As lágrimas que escondi.

As perguntas sem resposta.

Os medos que fingi não ter.

Fui enchendo espaços
que já estavam demasiado apertados,

convencendo-me
de que conseguia carregar tudo
sem deixar nada cair.

Por fora,
continuava a ser eu.

Sorria.

Falava.

Fazia o que tinha de fazer.

Mas por dentro
havia qualquer coisa
a transbordar lentamente.

Pensamentos sobre pensamentos.

Memórias sobre memórias.

Sentimentos que nunca encontraram
um lugar para descansar.

E quanto mais tentava controlar,
mais difícil se tornava respirar.

Havia dias
em que a minha própria cabeça
parecia uma sala sem janelas,

cheia de vozes
a falar ao mesmo tempo.

Queria silêncio.

Queria espaço.

Queria simplesmente
sentir alguma coisa
sem precisar de a compreender.

Até perceber
que não posso continuar
a guardar tudo.

Que também tenho direito
a dizer que dói.

A admitir que estou cansado.

A deixar cair
aquilo que já não consigo carregar.

Talvez eu tenha confundido
força com resistência.

Talvez ser forte
não seja suportar tudo em silêncio,

mas ter coragem
para reconhecer
quando já chega.

Por isso, hoje,
começo a abrir as mãos.

Deixo partir
algumas culpas.

Alguns medos.

Algumas memórias
que já não precisam
de viver comigo.

Não preciso de esquecer
para conseguir seguir.

Preciso apenas
de deixar de viver
dentro daquilo
que me magoou.

E, pouco a pouco,
o espaço aparece.

Primeiro,
um pequeno silêncio.

Depois,
uma respiração mais tranquila.

E finalmente
um lugar dentro de mim
onde posso voltar
a ouvir a minha própria voz.

Ainda existem dias
em que tudo ameaça transbordar.

Mas agora sei
que não preciso
de fechar todas as comportas.

Posso parar.

Posso respirar.

Posso pedir ajuda.

Posso deixar alguém aproximar-se.

Posso dizer:

“Hoje não consigo sozinho.”

E isso não me torna fraco.

Torna-me humano.

Talvez seja isso
que eu precisava aprender:

não fui feito
para guardar o mundo inteiro
dentro do peito.

Há coisas que precisam
de ser ditas.

Há dores que precisam
de ser choradas.

Há pesos que precisam
de ser pousados.

E há uma vida inteira
à minha espera
do outro lado
desse silêncio.

Por isso,
se hoje eu transbordar,

não vou ter vergonha.

Deixarei que tudo saia.

As lágrimas.

As palavras.

O medo.

A tristeza.

Tudo aquilo
que durante tanto tempo
tentei esconder.

E quando finalmente
restar apenas silêncio,

talvez consiga perceber
que não estava a desmoronar.

Estava apenas
a abrir espaço

para voltar

a respirar.

domingo, setembro 20, 2026

A Luz Que Eu Ainda Procuro


Há noites
em que olho para o céu
e parece que todas as estrelas
se esqueceram de mim.

Fico ali,
entre o silêncio e a esperança,
a tentar descobrir
se ainda existe alguma luz
capaz de me encontrar.

Já esperei demasiado
por respostas
que nunca chegaram.

Por uma mão
que aparecesse no momento certo.

Por alguém que dissesse
que tudo ficaria bem.

Mas aprendi
que nem sempre a luz
vem de fora.

Às vezes esperamos tanto
que alguém nos salve
que esquecemos
que ainda conseguimos
dar um passo sozinhos.

Eu também tive noites
em que pensei
que não havia amanhã.

Dias em que o coração
se cansou de acreditar.

Momentos em que a esperança
parecia apenas
uma palavra bonita
sem lugar na minha vida.

Mas continuei.

Mesmo sem saber porquê.

Continuei quando não tinha forças.

Continuei quando o caminho
parecia desaparecer
debaixo dos meus pés.

E talvez tenha sido aí
que alguma coisa mudou.

Percebi que não precisava
de ver o fim da noite
para acreditar na manhã.

Bastava continuar.

Um passo.

Depois outro.

Uma respiração.

Mais um dia.

Talvez a luz
que eu procurava
nunca chegasse da forma
como a imaginei.

Talvez não fosse
um acontecimento extraordinário,

nem uma resposta perfeita,

nem alguém a aparecer
para apagar todas as minhas dores.

Talvez fosse apenas
a pequena vontade
de não desistir.

Aquele instante
em que, mesmo cansado,
o coração diz:

“Mais uma vez.”

E eu ouvi.

Hoje ainda tenho cicatrizes.

Ainda existem dias
em que a escuridão
parece demasiado próxima.

Ainda há coisas
que não compreendo.

Mas já não tenho tanto medo
da noite.

Porque sei
que posso atravessá-la.

E, enquanto caminho,
vou aprendendo
a criar a minha própria luz.

Não uma luz perfeita.

Não uma luz que elimine
tudo o que dói.

Uma luz pequena,

mas verdadeira,

capaz de iluminar
apenas o próximo passo.

E talvez seja suficiente.

Porque não preciso
de saber onde termina
o caminho.

Preciso apenas
de continuar.

Até que um dia
olhe para trás

e perceba

que aquela luz
que esperei durante tanto tempo

não estava escondida
no fim da noite.

Estava comigo
desde o início.

Eu é que ainda
não tinha aprendido

a vê-la.

sábado, setembro 19, 2026

O Vazio Que Deixei Para Trás

Há dias em que sinto
que preciso de qualquer coisa
que me faça esquecer
a monotonia dos dias iguais.

Não procuro uma fuga.

Procuro uma sensação
que me acorde por dentro,
que faça o coração acelerar
e me devolva aquela vontade
de viver sem pensar demasiado.

Preciso de algo
que não tenha efeitos secundários,
que não me roube a lucidez,
mas que consiga transformar
um dia comum
num momento impossível de esquecer.

E então apareces tu.

Com esse sorriso
que desarma as minhas defesas,
com esse olhar
que parece saber exatamente
onde tocar
sem sequer me tocar.

Talvez sejas tu
aquilo que eu procurava
sem saber que procurava.

Não uma cura
para aquilo que me falta,

mas uma razão
para deixar de procurar.

Porque contigo
não preciso de esquecer o mundo.

Quero senti-lo.

Quero rir mais alto,
ficar acordado até tarde,
inventar planos sem sentido,
perder-me em conversas
que nunca queremos terminar.

Quero aquela vertigem
que começa num olhar
e termina num sorriso.

Quero a tua presença
nos meus dias bons
e nos dias em que tudo pesa.

Quero sentir
que ainda existe dentro de mim
uma parte capaz de se surpreender,
de desejar,
de sonhar
e de se apaixonar.

E se o amor tem mesmo
alguma espécie de loucura,

então talvez eu não queira
ser curado.

Quero apenas
continuar a sentir
esta coisa estranha e bonita
que acontece quando penso em ti.

Porque há pessoas
que nos fazem perder o equilíbrio.

E há pessoas
que nos fazem perceber
que nunca estivemos
tão vivos.

Tu és assim.

Não preciso de outra coisa.

Preciso apenas
desse instante em que apareces,

desse sorriso que fica comigo
mesmo depois de partires,

e dessa sensação
de que, por alguns momentos,

o mundo inteiro
fica exatamente
onde devia estar.

E talvez seja isso
que eu sempre procurei:

não algo que me faça
esquecer a vida,

mas alguém
que me faça

querer vivê-la

com muito mais intensidade.

sexta-feira, setembro 18, 2026

Também Eu Sinto


Há dias
em que tudo parece demasiado.

O mundo continua a girar,
as pessoas continuam a sorrir,
os relógios continuam a avançar,

mas dentro de mim
há qualquer coisa
que simplesmente não consegue acompanhar.

Há momentos
em que me sinto cansado
de fingir que sou forte.

De dizer que está tudo bem
quando, na verdade,
só queria encontrar
um lugar onde pudesse
baixar a guarda.

Também eu sinto.

Também eu me perco.

Também eu tenho dias
em que não sei
para onde levar aquilo
que trago dentro do peito.

Aprendi a esconder
muitas coisas atrás de um sorriso.

Talvez porque sempre achei
que mostrar a dor
era mostrar fraqueza.

Hoje sei que não é.

Há uma coragem silenciosa
em admitir:

“Hoje não estou bem.”

E não há vergonha nenhuma
em precisar de parar.

Em respirar.

Em chorar.

Em pedir um abraço
sem conseguir explicar
porquê.

Todos carregamos
batalhas que ninguém vê.

Há pessoas que sorriem
enquanto lutam contra tempestades
que nunca chegam
a contar a ninguém.

Eu também tenho as minhas.

Algumas deixaram cicatrizes.

Outras ainda doem.

Mas aprendi
que uma noite difícil
não significa que a vida
será sempre escura.

Há manhãs
que chegam devagar.

Há pequenas coisas
que conseguem devolver
um pouco de luz.

Uma palavra.

Um abraço.

Um olhar.

A presença de alguém
que fica
quando seria mais fácil partir.

E talvez seja isso
que mais precisamos
nos momentos difíceis:

não de alguém
que tenha todas as respostas,

mas de alguém
que simplesmente diga:

“Estou aqui.”

Por isso,
quando eu próprio me sentir perdido,

vou tentar lembrar-me
de que não preciso
de resolver tudo hoje.

Posso avançar devagar.

Posso descansar.

Posso recomeçar
quantas vezes forem necessárias.

Porque a dor passa por fases.

A saudade muda de forma.

As feridas aprendem
a fechar.

E aquilo que hoje parece
impossível de suportar
pode, um dia,
tornar-se apenas
uma memória de uma batalha
que consegui atravessar.

Também eu sinto.

Também eu sofro.

Mas também eu continuo.

E enquanto houver
um pequeno espaço
para a esperança,

uma razão para acordar,

um abraço para receber,

um coração para amar,

eu vou continuar
a escolher a vida.

Mesmo nos dias difíceis.

Mesmo quando não tenho respostas.

Mesmo quando a luz
parece demasiado distante.

Porque aprendi
que não é preciso
ser forte o tempo inteiro.

Às vezes,

ser forte

é simplesmente

não desistir

de chegar

ao próximo amanhecer.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Leva-me Contigo

Há momentos em que o mundo
parece parar por um instante,
e basta uma presença, um olhar,
para tudo ganhar outro significado.

Há uma força que nos aproxima,
uma vontade difícil de explicar,
como se o coração soubesse
antes de nós onde quer ficar.

Quero viver esse sentimento
sem medo do que possa acontecer,
deixar que a ternura nos envolva
e que o desejo nos ensine a sentir.

Porque há amores que não precisam de promessas,
nem de palavras perfeitas para existir.
Basta encontrar alguém
que nos faça querer ficar,
que transforme cada instante
num motivo para sorrir.

E se a vida nos der esse momento,
quero vivê-lo sem hesitar:
entregar-me àquilo que sentimos
e deixar o coração
levar-nos para onde quiser chegar.