Passei metade da vida
a conversar com o vento,
e a outra metade
a aprender que o silêncio
também sabe responder.
Nunca temi os dias vazios.
Enchi-os de livros,
de caminhos sem destino,
de pores do sol
que ninguém viu comigo.
Havia uma paz estranha
em regressar sempre
à mesma porta,
acender a mesma luz
e encontrar-me inteiro.
Depois, um olhar atravessou o horizonte
como quem chega sem prometer ficar.
Nada mudou.
E, no entanto,
o mundo deixou de caber
no tamanho da minha janela.
Há ausências
que não fazem ruído.
Instalam-se devagar,
como a maresia
que entra por uma casa aberta
e deixa o cheiro do mar
mesmo quando o mar já partiu.
Continuo bem comigo.
Ainda gosto da chuva,
das ruas vazias,
do café acabado de fazer
e das manhãs lentas.
Mas há um lugar dentro de mim
que aprendeu um novo nome
e que, de vez em quando,
olha em volta
como quem espera ouvir
uns passos conhecidos.
Não é tristeza.
É apenas aquela distância
que existe entre o que somos
e aquilo que, por um breve instante,
imaginámos poder viver.
E sigo em frente,
com a mesma serenidade de sempre.
Porque há pessoas
que não ficam para preencher o vazio.
Ficam para mostrar
que até quem sempre caminhou sozinho
pode descobrir, por um momento,
que havia espaço
para mais um coração
na mesma estrada.






