sexta-feira, julho 10, 2026

No Lugar Onde os Sonhos Respiram

Quando a noite fecha os olhos do mundo,

há um caminho que só a alma conhece.

Não tem mapas,
não tem relógios,
não tem despedidas.

Basta adormecer.

É lá que volto a encontrar
aquilo que o dia não consegue explicar.

Um sorriso que ilumina o vazio,
uma presença que não faz perguntas,
um olhar onde o silêncio
tem mais significado do que mil palavras.

Nesse lugar
não existe distância.

As montanhas tornam-se pequenas,
os oceanos deixam de separar,
e o tempo aceita, por fim,
caminhar ao ritmo do coração.

Não sei se esse mundo existe.

Talvez seja apenas um refúgio
que inventei para continuar a acreditar.

Mas, sempre que acordo,
fica um perfume impossível de esquecer,
como se uma parte de mim
tivesse realmente vivido algures.

E passo o resto do dia
à procura dessa luz
nas ruas, nas pessoas, no céu.

Às vezes encontro apenas o eco.

Outras vezes,
um pequeno brilho basta
para me lembrar
que nem tudo o que é invisível
deixa de ser verdadeiro.

Se um dia os nossos caminhos
se cruzarem fora dos sonhos,
não precisarei de palavras.

Reconhecerei o teu olhar.

Porque há encontros
que acontecem muito antes de acontecerem.

E há almas
que se conhecem em silêncio
muito antes de se tocarem pela primeira vez.

quinta-feira, julho 09, 2026

Agora

Passei anos

a guardar palavras
como quem fecha cartas
numa gaveta sem destinatário.

Dizia a mim mesmo:
"há tempo."

Tempo para partir,
tempo para ficar,
tempo para tentar,
tempo para sentir.

Mas o tempo
nunca pediu licença.

Foi passando,
levando rostos,
levando oportunidades,
levando versões de mim
que nunca chegaram a nascer.

Então compreendi.

A vida não espera
que os medos aprendam coragem.

Os dias não voltam atrás
para ouvir aquilo
que ficou por dizer.

Hoje já não procuro
o momento perfeito.

Procuro apenas
a verdade.

Se sorrio,
que seja inteiro.

Se abraço,
que seja sem reservas.

Se parto,
que seja porque o caminho me chama,
e não porque o receio me empurra.

Ainda caminho sozinho.

Não porque o mundo esteja vazio,
mas porque aprendi
que a companhia mais importante
é aquela que encontramos
quando deixamos de fugir de nós.

E, se um dia alguém decidir
caminhar ao meu lado,
não lhe prometerei eternidade.

Prometerei apenas isto:

Que nunca adiarei um gesto sincero.

Que nunca esconderei
o que o coração tem para dizer.

Porque a vida não começa amanhã.

Ela acontece
neste exato instante.

E este instante,
por mais pequeno que pareça,
é tudo o que verdadeiramente temos.

Casa de Silêncios


Passei metade da vida

a conversar com o vento,
e a outra metade
a aprender que o silêncio
também sabe responder.

Nunca temi os dias vazios.
Enchi-os de livros,
de caminhos sem destino,
de pores do sol
que ninguém viu comigo.

Havia uma paz estranha
em regressar sempre
à mesma porta,
acender a mesma luz
e encontrar-me inteiro.

Depois, um olhar atravessou o horizonte
como quem chega sem prometer ficar.

Nada mudou.

E, no entanto,
o mundo deixou de caber
no tamanho da minha janela.

Há ausências
que não fazem ruído.
Instalam-se devagar,
como a maresia
que entra por uma casa aberta
e deixa o cheiro do mar
mesmo quando o mar já partiu.

Continuo bem comigo.

Ainda gosto da chuva,
das ruas vazias,
do café acabado de fazer
e das manhãs lentas.

Mas há um lugar dentro de mim
que aprendeu um novo nome
e que, de vez em quando,
olha em volta
como quem espera ouvir
uns passos conhecidos.

Não é tristeza.

É apenas aquela distância
que existe entre o que somos
e aquilo que, por um breve instante,
imaginámos poder viver.

E sigo em frente,
com a mesma serenidade de sempre.

Porque há pessoas
que não ficam para preencher o vazio.

Ficam para mostrar
que até quem sempre caminhou sozinho
pode descobrir, por um momento,
que havia espaço
para mais um coração
na mesma estrada.

quarta-feira, julho 08, 2026

O Lugar Onde Fico


Sempre caminhei devagar,

como quem nunca precisou
de correr atrás do mundo.

Aprendi cedo
que o silêncio também conversa,
que uma chávena esquecida na mesa,
uma janela aberta ao entardecer
ou o cheiro da terra depois da chuva
podem fazer companhia.

Nunca temi a ausência.

Ela ensinou-me
que nem todas as partidas
deixam vazio.

Há quem leve consigo
o calor de um abraço,
um riso que ficou suspenso no tempo,
um olhar que nunca se repetiu.

Não pesa.

Apenas mora.

É uma presença discreta,
como a luz que entra pela cortina
antes de a manhã acordar.

Continuo bem comigo.

Planto dias simples,
converso com os meus pensamentos,
e descubro que a paz
não faz barulho.

Mas, de vez em quando,
o vento traz um perfume antigo
e o coração sorri
sem pedir licença.

Talvez seja isso
o que fica das pessoas verdadeiras.

Não pertencem ao passado.

Transformam-se num lugar invisível
onde regressamos sem dar conta.

E, mesmo seguindo sozinho,
há caminhos
que nunca mais voltam
a ser percorridos por uma só sombra.

terça-feira, julho 07, 2026

Enquanto o Céu Me Espera

Nasci de mãos vazias,

com o silêncio como companheiro
e o horizonte como única promessa.

Nunca temi a solidão.
Ela ensinou-me a ouvir
o som das árvores,
o ritmo da chuva
e as respostas que o mundo só oferece
a quem sabe esperar.

Vi rostos passarem
como estações do ano.
Alguns trouxeram primavera,
outros apenas vento.
Todos seguiram viagem.

E eu fiquei.

Não preso ao passado,
mas enraizado em mim.

O tempo deixou marcas,
algumas visíveis,
outras escondidas atrás do sorriso
de quem aprendeu
que nenhuma noite é eterna.

Ainda olho para o alto.

Não à espera de milagres,
mas porque há sonhos
que recusam envelhecer.

Enquanto houver um novo amanhecer,
haverá um caminho por descobrir,
uma montanha por subir,
um verso por escrever.

Talvez um dia alguém caminhe ao meu lado.
Talvez não.

Mas nunca deixarei de seguir em frente,
porque a vida não pertence
a quem nunca caiu.

Pertence a quem,
mesmo sozinho,
ergue os olhos para o infinito
e continua a acreditar
que o melhor capítulo
ainda não foi vivido.

segunda-feira, julho 06, 2026

Entre o Silêncio e o Horizonte

 

Passei a vida inteira

de mãos dadas com o silêncio.

Nunca lhe pedi que partisse,

nem ele me exigiu companhia.

Aprendi a conversar com o vento,

a rir das minhas próprias distrações,

a encontrar abrigo

no som discreto da chuva.

Não me faltava nada...

até ao dia em que um sorriso

abriu uma janela

numa casa onde eu já tinha fechado todas as portas.

Desde então,

o horizonte ficou mais bonito,

mas também mais distante.

Há pessoas que chegam

sem fazer barulho

e transformam para sempre

a paisagem de quem as vê.

Nunca lhes pertencemos.

São como estrelas refletidas num lago:

parecem estar ao alcance da mão,

mas vivem noutro céu.

Ainda assim,

não me arrependo de as contemplar.

Há uma beleza serena

em desejar o impossível

sem lhe arrancar as asas.

Continuo a caminhar sozinho,

como sempre caminhei.

Não por derrota,

nem por resignação.

Apenas porque algumas presenças

não nasceram para ser abrigo,

mas para recordar

que até o coração mais tranquilo

é capaz de encontrar um infinito

num simples olhar.

sábado, julho 04, 2026

Cicatrizes Invisíveis


Há um silêncio que ninguém escuta,
mas que grita dentro do peito.
Não deixa sangue nas mãos,
apenas memórias onde antes havia esperança.

Carrego o peso dos dias
como quem arrasta correntes feitas de escolhas.
Algumas foram minhas,
outras foram apenas o preço de continuar.

Olho para trás
e encontro sombras com o meu nome.
Pessoas que amei,
sonhos que deixei cair pelo caminho,
palavras que nunca tive coragem de dizer.

O espelho devolve-me um rosto cansado,
marcado pelo tempo e pelas despedidas.
Ainda assim, atrás das rugas da alma,
há uma pequena chama que insiste em não morrer.

Porque a dor ensina,
mas nunca deve governar.
As cicatrizes lembram quem fomos,
não quem ainda podemos ser.

Se um dia tudo desaparecer —
o orgulho, os medos, os aplausos e os fracassos —
espero que reste apenas isto:
um coração imperfeito,
que amou com tudo o que tinha,
e encontrou na própria fragilidade
a última forma de permanecer humano.

quarta-feira, agosto 02, 2023

Sonhar



Em um viver de sombras e de luz dispersa,
Na estrada escura que a vida traz consigo,
Um canto ecoa, qual brisa que atravessa,
Versos que alçam a alma num eterno abrigo.

"Sonhar, sonhar", murmura em doce voz,
O eco do ser, tão terno e tão profundo,
Em sonhos encontramos o nosso após,
No âmago, a força do sonhar fecundo.

Nas asas do pensamento a alçar voo,
Na imaginação, um mundo a desvendar,
Onde o impossível encontra o que é seu,
No horizonte dos sonhos a navegar.

Em cada traço, um rastro de poesia,
No labirinto da mente, segredos em flor,
Melodia que encanta a alma e irradia,
Na canção, um pedaço do amor.

"Siga em frente", sussurra o coração,
E ao vento, desfolham-se as inquietações,
Persistência e fé, a eterna lição,
Que ilumina as sombras das emoções.

Enfrenta o medo, sem receio de cair,
Como a gaivota, voa pelo céu,
Em sonhos, a liberdade a florescer aqui,
No ritmo da vida, um eterno réveil.

Que a essência dos sonhos nunca se esvaça,
Na teia do destino, entrelaçados a sorrir,
No canto que se eleva, a alma se enlaça,
E na doce melodia, é o sonho que há de vir.