quarta-feira, setembro 30, 2026

O Meu Céu Cheio de Estrelas


Há pessoas que chegam

e mudam a cor dos dias
sem sequer perceberem.

Tu foste assim.

Chegaste devagar,
sem prometer nada,
e, de repente,
havia mais luz
nos lugares onde eu só via sombra.

Eu não sei explicar
o que acontece comigo
quando penso em ti.

É como se o mundo
ficasse um pouco mais leve.

Como se as noites
deixassem de ser tão longas.

Como se, por alguns instantes,
eu conseguisse esquecer
tudo aquilo que pesa
dentro de mim.

Há qualquer coisa em ti
que me faz querer acreditar.

Acreditar no amanhã.

Acreditar que ainda existem
encontros que não são acaso.

Acreditar que, mesmo depois
de algumas tempestades,
o céu pode voltar
a encher-se de estrelas.

E eu gosto de pensar
que uma dessas estrelas
é tua.

Não porque brilhes
por precisares de alguém
que te ilumine,

mas porque há pessoas
que simplesmente trazem luz
consigo.

Tu és uma delas.

Quando estás perto,
não preciso de grandes palavras.

Basta o teu olhar.

O teu sorriso.

Aquela maneira
como consegues transformar
um momento simples
em algo que eu quero guardar.

Se pudesse pedir alguma coisa
ao universo,

não pediria uma vida perfeita.

Pediria apenas
mais momentos contigo.

Mais conversas
que começam sem propósito
e acabam por ficar
na memória.

Mais risos.

Mais silêncios
que não precisam de ser preenchidos.

Mais noites
em que o tempo parece esquecer-se
de continuar.

Porque descobri
que a felicidade
nem sempre chega
como uma grande explosão.

Às vezes chega assim:

numa pessoa,

num abraço,

numa mensagem inesperada,

num olhar
que nos faz sentir
que estamos exatamente
onde deveríamos estar.

E quando penso em ti,
sinto que o meu céu
fica maior.

Há mais espaço
para sonhar.

Mais espaço
para acreditar.

Mais espaço
para amar.

Não sei quanto tempo
a vida nos dará.

Não sei o que o amanhã
vai trazer.

Mas sei uma coisa:

enquanto estiveres
em algum lugar da minha vida,

haverá sempre
uma estrela acesa
dentro de mim.

E mesmo quando
as nuvens aparecerem,

mesmo quando
os dias forem difíceis,

eu vou lembrar-me
daquilo que senti
quando olhei para ti
e percebi:

há pessoas
que não precisam
de salvar-nos.

Basta existirem
para nos fazer
querer continuar.

E tu,

sem saberes,

tornaste-te
uma dessas pessoas
para mim.

Por isso,
se algum dia
olhares para o céu
e encontrares uma estrela
a brilhar um pouco mais,

pensa que talvez
seja o meu jeito
de te dizer,

à distância,

que ainda acredito
na luz,

nos encontros,

nos sonhos

e em tudo aquilo
que pode nascer
quando duas pessoas
decidem não ter medo
de sentir.

Porque desde que chegaste,

o céu dentro de mim
nunca mais voltou
a ser o mesmo.

terça-feira, setembro 29, 2026

As Sementes Que Ainda Quero Plantar


Eu ainda acredito
que algumas coisas bonitas
começam de forma quase invisível.

Uma palavra.

Um gesto.

Um pouco de ternura
num mundo que tantas vezes
se esquece de ser gentil.

Eu próprio já me cansei
de ver tanta coisa
a nascer do medo,

da raiva,

da indiferença,

como se endurecer o coração
fosse a única maneira
de sobreviver.

Mas eu não quero ser assim.

Quero plantar outra coisa.

Quero deixar no caminho
mais compreensão
do que julgamento,

mais abraços
do que distâncias,

mais esperança
do que desconfiança.

Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.

Talvez algumas feridas
sejam demasiado profundas
para serem curadas
por uma única pessoa.

Mas posso começar
por aquilo que está
ao meu alcance.

Posso escolher
as palavras que digo.

A forma como olho.

A maneira como trato
quem cruza o meu caminho.

Posso ser abrigo
num dia de tempestade.

Posso ser silêncio
quando alguém precisar
apenas de ser ouvido.

Posso estender a mão
sem perguntar
se a pessoa merece.

Porque talvez o amor
não seja apenas
aquilo que sentimos
por alguém especial.

Talvez também seja
aquilo que decidimos
deixar no mundo
depois de passarmos por ele.

E eu quero deixar luz.

Mesmo que seja pequena.

Mesmo que ninguém saiba
que fui eu quem a acendeu.

Quero acreditar
que uma coisa boa
pode gerar outra.

Que um sorriso
pode mudar um dia.

Que uma palavra
pode impedir uma despedida.

Que um gesto de carinho
pode devolver esperança
a alguém que já tinha desistido
de a procurar.

Eu também tenho
as minhas sombras.

Não sou feito apenas
de bondade ou certezas.

Tenho erros.

Tenho cicatrizes.

Tenho dias
em que também me perco.

Mas talvez seja precisamente
por conhecer a escuridão
que hoje dou mais valor
a qualquer pequena luz.

Por isso,
se tiver de escolher
o que quero cultivar,

escolho a esperança.

Escolho o amor.

Escolho a coragem
de continuar a acreditar
nas pessoas,

mesmo depois
de algumas me terem desiludido.

E se amanhã
alguém encontrar
uma pequena semente
no lugar por onde passei,

espero que a plante.

Que a regue.

Que tenha paciência
com os dias em que nada parece acontecer.

Porque algumas das coisas
mais bonitas da vida
crescem longe dos nossos olhos.

Talvez um dia
essas sementes floresçam
num lugar que nunca conhecerei.

E isso será suficiente para mim.

Porque já não preciso
de ver o resultado
de tudo aquilo que faço.

Quero apenas saber
que, enquanto estive aqui,

não deixei o mundo
exatamente igual
à forma como o encontrei.

Se consegui tornar
um único coração
um pouco mais leve,

se consegui devolver
um pouco de esperança
a alguém,

se consegui fazer
uma pessoa acreditar
que ainda vale a pena amar,

então já terá valido a pena.

E é assim que quero seguir:

com as mãos cheias
de sementes,

o coração aberto
ao inesperado

e a certeza
de que ainda há coisas bonitas
por nascer.

Talvez o futuro
não esteja escrito.

Talvez dependa também
daquilo que decidimos plantar hoje.

E eu,

se puder escolher,

vou plantar amor.

Vou plantar esperança.

Vou plantar aquilo
que gostaria de encontrar
quando olhar para o mundo
amanhã.

segunda-feira, setembro 28, 2026

O Amor Também Precisa de Água


Eu acredito que o amor
se parece muito com uma planta.

Não basta plantá-lo
e esperar que cresça sozinho.

É preciso cuidar.

Dar-lhe tempo.

Aproximar-se todos os dias
e perceber quando as suas folhas
começam a perder a cor.

Porque também o amor
tem sede.

Sede de palavras.

De atenção.

De pequenos gestos
que parecem insignificantes,
mas dizem:

“Estou aqui.”

Eu sei que a vida
nem sempre deixa espaço
para cuidar de tudo.

Há dias cansados.

Há preocupações.

Há silêncios que se prolongam
mais do que deviam.

Mas aprendi
que aquilo que amamos
não pode viver eternamente
daquilo que demos no passado.

Uma planta não sobrevive
porque foi regada ontem.

E um amor também não.

Precisa de presença.

Precisa de carinho.

Precisa daquela vontade
de continuar a escolher
a mesma pessoa
mesmo depois de o encanto inicial
se transformar em rotina.

Eu não quero um amor
que sobreviva por obrigação.

Quero um amor
que seja cuidado
porque ainda existe vontade
de o ver florescer.

Quero perguntar:

“Como estás?”

E realmente querer saber.

Quero ouvir
mesmo quando as palavras
são difíceis.

Quero abraçar
quando não houver respostas.

Quero estar presente
não apenas quando tudo
é bonito e fácil,

mas também quando houver
folhas caídas
e dias sem sol.

Porque sei que o amor
não morre apenas
por causa de uma grande tempestade.

Às vezes morre devagar,

num copo de água
que nunca chega,

num abraço adiado,

num “depois falamos”
que se transforma
em distância.

E eu não quero isso.

Se algum dia
as folhas do nosso amor
começarem a baixar,

quero perceber.

Quero aproximar-me.

Quero regar.

Quero cuidar.

Quero lembrar-me
de que amar alguém
não é apenas sentir.

É também fazer.

Todos os dias.

Mesmo nos pequenos detalhes.

Mesmo quando ninguém vê.

Porque uma flor pode ser linda
quando começa a abrir,

mas é o cuidado constante
que a mantém viva.

E eu quero ser esse cuidado.

Não quero prometer
que nunca haverá dias difíceis.

Quero prometer
que, quando chegarem,

não vou simplesmente
virar as costas.

Vou ficar.

Vou tentar.

Vou procurar a água
quando a terra estiver seca.

Vou procurar a luz
quando tudo parecer escuro.

Porque, para mim,

amar é isto:

não deixar morrer
aquilo que um dia
nos fez florescer.

E se depender de mim,

vou continuar a regar
o nosso amor,

até que as raízes
se tornem tão profundas

que nem o vento,

nem a distância,

nem os dias difíceis

consigam arrancá-lo

do lugar onde escolhi
plantá-lo:

dentro de mim.

domingo, setembro 27, 2026

Depois da Ponte


Durante demasiado tempo
tentei manter de pé
aquilo que já estava a cair.

Segurei pontes
construídas com promessas,
palavras partidas
e silêncios
que ninguém quis explicar.

Continuei a atravessá-las
mesmo quando cada passo
me dizia
que já não havia caminho
para o outro lado.

Fiquei.

Tentei compreender.

Perdoei mais vezes
do que devia.

E, cada vez que alguma coisa
me quebrava por dentro,
convencia-me de que era preciso
mais um esforço.

Mais uma oportunidade.

Mais uma tentativa.

Até perceber
que algumas pontes
não existem para nos levar
a algum lugar.

Existem apenas
para nos manter presos
ao lugar de onde tentamos sair.

Foi então que parei.

Olhei para trás
e vi tudo aquilo
que carregava comigo:

culpas que não eram minhas,
palavras que nunca devia
ter aceitado,
promessas que nunca foram cumpridas
e uma versão de mim
que passou demasiado tempo
a tentar ser suficiente
para alguém.

E percebi
que não precisava
de reconstruir aquela ponte.

Precisava de a deixar ir.

Não por ódio.

Não por vingança.

Mas porque finalmente
entendi que seguir em frente
também significa
saber quando parar de voltar.

Há despedidas
que parecem destruição,

mas são apenas
a forma que a vida encontra
de abrir espaço
para começarmos de novo.

Por isso, desta vez,
não vou olhar para trás
à procura de uma razão
para regressar.

Vou levar comigo
apenas aquilo que aprendi.

As cicatrizes.

A força.

A coragem
de ter sobrevivido
a tudo aquilo
que um dia pensei
que me destruiria.

E deixarei o resto
do outro lado.

Sem ressentimento.

Sem promessas.

Sem a necessidade
de provar nada a ninguém.

Porque descobri
que a minha paz
vale mais do que qualquer ponte
que me obrigue
a voltar ao passado.

Talvez um dia
olhe para aquele lugar
e já não sinta dor.

Talvez apenas gratidão
por ter tido coragem
de partir.

E quando isso acontecer,

vou perceber
que não perdi um caminho.

Ganhei liberdade.

Ganhei espaço
para respirar.

Ganhei a possibilidade
de construir algo novo
sem carregar
as ruínas do que ficou para trás.

A ponte pode desaparecer.

As memórias podem permanecer.

Mas eu continuo.

E desta vez,

não vou atravessar
para voltar ao passado.

Vou seguir em frente

até encontrar
um lugar onde não precise
de me perder
para conseguir ficar.

sábado, setembro 26, 2026

Só Mais Uma Noite


Há noites que parecem
ter sido feitas
para esquecer o relógio.

Aquelas em que o mundo
fica lá fora,

e tudo o que importa
é o instante
que estamos a viver.

Se eu pudesse escolher,
guardava uma noite contigo.

Sem pressa.

Sem perguntas.

Sem pensar no amanhã.

Apenas nós,
a rir de coisas sem importância,
a trocar olhares
que dizem muito mais
do que qualquer palavra.

Queria perder-me
nas tuas conversas,

na maneira como sorris,

naquela proximidade
que faz o coração
esquecer por alguns segundos
tudo o que existe à volta.

Talvez fosse só uma noite.

Mas há noites
que conseguem ficar
para uma vida inteira.

E eu sei que, contigo,
não precisaria de grandes planos.

Bastava uma música,

uma janela aberta,

a cidade iluminada lá fora

e o teu corpo perto do meu.

O resto podia esperar.

Queria sentir aquele momento
sem medo de que acabasse.

Porque às vezes
a felicidade não precisa
de promessas eternas.

Precisa apenas
de alguém que queira ficar
mais um pouco.

E eu ficaria.

Mesmo depois de a música terminar.

Mesmo quando a madrugada
começasse a nascer
por detrás das janelas.

Ficaria mais alguns minutos,

só para prolongar
a sensação de te ter perto.

Talvez te dissesse
que não quero que esta noite termine.

Talvez não dissesse nada.

Talvez apenas
te olhasse,

porque há momentos
em que falar
é estragar aquilo
que o silêncio está a dizer.

E se amanhã
tudo voltasse ao normal,

se cada um tivesse
de regressar à sua vida,

eu levaria comigo
esta noite.

O teu sorriso.

O teu olhar.

A tua presença.

A sensação de que,
por algumas horas,

o mundo inteiro
coube entre nós.

Por isso,
se me perguntasses
o que eu queria,

não pediria para sempre.

Pediria apenas
mais uma noite.

Uma noite sem medo,

sem distância,

sem passado,

sem futuro.

Só tu e eu,

a viver o presente
como se o tempo
tivesse finalmente aprendido
a parar.

E talvez,
quando o dia chegasse,

eu percebesse
que não precisava
de mais nada.

Porque algumas noites
não são apenas noites.

São aqueles raros momentos
em que a vida
nos lembra

como é bom

sentir.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Voltar a Construir


Há coisas em mim
que já não reconheço.

Pequenas partes
que foram ficando pelo caminho,

entre escolhas que fiz,
palavras que calei
e sonhos que deixei
à espera de um momento melhor.

Olho para aquilo que fui
e percebo que algumas versões de mim
precisavam mesmo de desaparecer.

Não porque fossem fracas,

mas porque já não sabiam
como continuar a viver
sem carregar tudo às costas.

Às vezes é preciso
deixar uma estrutura cair
para perceber
o que realmente merece
ser reconstruído.

E eu estou nesse lugar.

Entre os destroços
daquilo que já não quero ser
e a vontade imensa
de começar outra vez.

Não quero juntar os pedaços
da mesma maneira.

Não quero reconstruir
as mesmas paredes
nem voltar a abrir
as mesmas portas.

Quero espaço.

Ar.

Luz.

Quero uma vida
onde possa respirar
sem estar constantemente
a tentar corresponder
àquilo que esperam de mim.

Talvez algumas coisas
tenham de ser desfeitas.

Algumas certezas.

Alguns medos.

Alguns laços
que confundia com destino.

Algumas promessas
que fiz a mim próprio
e que já não fazem sentido.

E não tenho medo
de admitir isso.

Aprendi que mudar
não significa apagar
quem fui.

Significa olhar para trás
e escolher conscientemente
o que merece continuar comigo.

Há memórias
que guardarei.

Há pessoas
que continuarão
a ter um lugar em mim.

Há cicatrizes
que não quero esconder.

Mas já não quero
que o passado
decida o tamanho
do meu futuro.

Quero reconstruir-me
com aquilo que sou agora.

Com as minhas imperfeições.

Com as minhas dúvidas.

Com aquilo que aprendi
quando tudo parecia ruir.

E talvez seja essa
a verdadeira liberdade:

não precisar de voltar
a ser quem era
só porque foi essa pessoa
que os outros conheceram.

Posso mudar.

Posso recomeçar.

Posso deixar cair
o que já não me sustenta.

E posso construir
algo que finalmente
tenha a minha forma.

Não sei exatamente
como será o amanhã.

Mas, pela primeira vez,
isso não me assusta.

Porque já não preciso
de ter todas as respostas.

Preciso apenas
de continuar a escolher
aquilo que me faz inteiro.

Se for necessário
desmontar tudo,

eu desmonto.

Se for preciso
começar com uma única pedra,

começo.

E, desta vez,

cada coisa que eu construir
terá uma razão:

não para impressionar alguém,

não para esconder as minhas falhas,

não para parecer forte,

mas para criar
um lugar dentro de mim
onde eu possa finalmente
sentir-me em casa.

Porque talvez
a minha maior transformação
não seja tornar-me
uma pessoa diferente.

Talvez seja, finalmente,

ter coragem

de ser

quem sempre fui.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Preciso de Algo Assim


Há dias em que sinto
que preciso de qualquer coisa
que me faça esquecer
a monotonia dos dias iguais.

Não procuro uma fuga.

Procuro uma sensação
que me acorde por dentro,
que faça o coração acelerar
e me devolva aquela vontade
de viver sem pensar demasiado.

Preciso de algo
que não tenha efeitos secundários,
que não me roube a lucidez,
mas que consiga transformar
um dia comum
num momento impossível de esquecer.

E então apareces tu.

Com esse sorriso
que desarma as minhas defesas,
com esse olhar
que parece saber exatamente
onde tocar
sem sequer me tocar.

Talvez sejas tu
aquilo que eu procurava
sem saber que procurava.

Não uma cura
para aquilo que me falta,

mas uma razão
para deixar de procurar.

Porque contigo
não preciso de esquecer o mundo.

Quero senti-lo.

Quero rir mais alto,
ficar acordado até tarde,
inventar planos sem sentido,
perder-me em conversas
que nunca queremos terminar.

Quero aquela vertigem
que começa num olhar
e termina num sorriso.

Quero a tua presença
nos meus dias bons
e nos dias em que tudo pesa.

Quero sentir
que ainda existe dentro de mim
uma parte capaz de se surpreender,
de desejar,
de sonhar
e de se apaixonar.

E se o amor tem mesmo
alguma espécie de loucura,

então talvez eu não queira
ser curado.

Quero apenas
continuar a sentir
esta coisa estranha e bonita
que acontece quando penso em ti.

Porque há pessoas
que nos fazem perder o equilíbrio.

E há pessoas
que nos fazem perceber
que nunca estivemos
tão vivos.

Tu és assim.

Não preciso de outra coisa.

Preciso apenas
desse instante em que apareces,

desse sorriso que fica comigo
mesmo depois de partires,

e dessa sensação
de que, por alguns momentos,

o mundo inteiro
fica exatamente
onde devia estar.

E talvez seja isso
que eu sempre procurei:

não algo que me faça
esquecer a vida,

mas alguém
que me faça

querer vivê-la

com muito mais intensidade.

quarta-feira, setembro 23, 2026

Se Pudesses Ouvir-me


Há perguntas
que ficam para sempre
sem encontrar resposta.

Há ausências
que não se explicam
com palavras,

porque existem despedidas
que deixam no coração
um silêncio impossível de preencher.

Às vezes penso
no que diria
se pudesse falar contigo
mais uma vez.

Talvez não encontrasse
as palavras certas.

Talvez apenas te abraçasse
e ficasse em silêncio,

porque há sentimentos
que nenhuma frase
consegue carregar.

Pergunto-me
se me reconhecerias,

se saberias
quanto pensei em ti,

quantas vezes
o teu nome atravessou
os meus pensamentos
sem que ninguém percebesse.

A vida continuou.

Os dias passaram.

As pessoas sorriram,

os relógios não pararam,

e o mundo pareceu esquecer
que, algures dentro de mim,
ficou um lugar
onde o tempo nunca avançou.

Aprendi a viver
com a saudade.

Não porque tenha deixado
de doer,

mas porque percebi
que amar alguém
também pode significar
carregar a sua ausência
com ternura.

Há momentos
em que olho para o céu
e imagino que existe
alguma forma de distância
onde ainda nos podemos encontrar.

Talvez num sonho.

Talvez numa memória.

Talvez naquele instante
em que o coração aperta
sem razão aparente
e, por um segundo,
parece que estás perto.

Se pudesses ouvir-me,

dir-te-ia que não esqueci.

Que algumas pessoas
não desaparecem verdadeiramente.

Mudam de lugar.

Deixam de estar
ao nosso lado

e passam a viver
dentro de nós.

Nas pequenas coisas.

Num sorriso.

Numa música.

Num céu ao entardecer.

Num momento inesperado
em que a saudade
chega sem avisar.

E talvez seja essa
a única maneira
de continuar a amar
quem já não podemos abraçar:

guardar a sua existência
naquilo que somos.

Hoje sigo em frente,

mas não te deixo para trás.

Levo comigo
aquilo que me ensinaste,

aquilo que senti,

aquilo que nunca conseguirei explicar
completamente.

E quando a saudade
se torna demasiado pesada,

fecho os olhos
e imagino que, algures,
onde não existem distâncias
nem despedidas,

o nosso reencontro
já aconteceu.

Até lá,

continuarei a viver.

A sorrir quando conseguir.

A amar.

A guardar-te
no lugar mais silencioso
do meu coração.

Porque há pessoas
que partem demasiado cedo,

mas deixam uma luz
que o tempo não consegue apagar.

E enquanto essa luz
continuar dentro de mim,

uma parte de ti
continuará a caminhar comigo,

mesmo que os meus olhos
já não te possam encontrar.

terça-feira, setembro 22, 2026

O Abrigo Que Procurei


Há lugares onde nos escondemos

sem sequer perceber
que estamos a fugir.

Eu conheci esse lugar.

Era feito de promessas,
de palavras bonitas,
de braços que pareciam seguros
e de silêncios
que eu confundia com paz.

Queria apenas sentir
que alguém ficaria.

Que, quando o mundo pesasse,
haveria um lugar
onde pudesse pousar o coração.

E talvez tenha pedido demais
a quem não sabia
como me dar aquilo
de que eu precisava.

Confundi proximidade
com presença.

Confundi palavras
com certezas.

Confundi um abrigo
com uma prisão
onde, aos poucos,
deixei de saber quem era.

Havia calor,
mas faltava verdade.

Havia carinho,
mas havia também
uma distância que eu não conseguia atravessar.

E eu permanecia ali,

a tentar encontrar
num olhar
a segurança
que nunca chegava por inteiro.

Até perceber
que nenhum abrigo
pode ser construído
sobre o medo de perder alguém.

Eu não quero mais
um lugar onde tenha
de esconder aquilo que sinto
para continuar a ser aceite.

Não quero mãos
que me segurem
apenas quando lhes convém.

Não quero promessas
que soem bonitas
mas desapareçam
quando chega a tempestade.

Quero algo simples.

Alguém que fique
sem eu ter de pedir.

Um abraço
onde não precise
de explicar a minha dor.

Um olhar
que não me faça duvidar
do lugar que ocupo.

Quero poder chegar
com todas as minhas imperfeições
e ainda assim
sentir que pertenço.

E também quero aprender
a ser esse abrigo para mim.

A não abandonar-me
quando alguém decide partir.

A não diminuir aquilo que sinto
para caber na vida de outra pessoa.

A não chamar amor
àquilo que me faz
sentir sozinho.

Talvez seja essa
a parte mais difícil:

aceitar que nem todo o lugar
que nos protege
é um lugar onde devemos ficar.

Algumas portas
precisam de ser fechadas.

Algumas mãos
precisam de ser libertadas.

Alguns sonhos
precisam de deixar
de ser nossos.

Não porque deixámos de sentir,

mas porque finalmente
aprendemos a distinguir
amor de necessidade.

Hoje, se procuro abrigo,
não procuro paredes.

Procuro verdade.

Procuro tranquilidade.

Procuro alguém
com quem possa existir
sem representar
uma versão mais fácil
de mim.

E se esse lugar
ainda não existir,

eu espero.

Enquanto isso,
construo-o dentro de mim.

Pedra por pedra.

Com aquilo que aprendi.

Com aquilo que sobrevivi.

Com todas as partes
que pensei ter perdido.

Porque já não quero
um abrigo que apenas
me esconda da chuva.

Quero um lugar
onde possa abrir as janelas,
deixar entrar a luz
e respirar profundamente,

sem medo
de que o céu volte a cair.

E quando alguém entrar
nesse lugar,

quero que seja
para ficar por escolha,

não por necessidade.

Porque agora sei:

um verdadeiro abrigo
não é aquele que nos impede
de enfrentar o mundo.

É aquele que nos dá força
para sermos nós próprios
quando voltamos
a sair pela porta.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Quando já não cabe mais


Durante muito tempo
fui guardando tudo dentro de mim.

As palavras que não disse.

As lágrimas que escondi.

As perguntas sem resposta.

Os medos que fingi não ter.

Fui enchendo espaços
que já estavam demasiado apertados,

convencendo-me
de que conseguia carregar tudo
sem deixar nada cair.

Por fora,
continuava a ser eu.

Sorria.

Falava.

Fazia o que tinha de fazer.

Mas por dentro
havia qualquer coisa
a transbordar lentamente.

Pensamentos sobre pensamentos.

Memórias sobre memórias.

Sentimentos que nunca encontraram
um lugar para descansar.

E quanto mais tentava controlar,
mais difícil se tornava respirar.

Havia dias
em que a minha própria cabeça
parecia uma sala sem janelas,

cheia de vozes
a falar ao mesmo tempo.

Queria silêncio.

Queria espaço.

Queria simplesmente
sentir alguma coisa
sem precisar de a compreender.

Até perceber
que não posso continuar
a guardar tudo.

Que também tenho direito
a dizer que dói.

A admitir que estou cansado.

A deixar cair
aquilo que já não consigo carregar.

Talvez eu tenha confundido
força com resistência.

Talvez ser forte
não seja suportar tudo em silêncio,

mas ter coragem
para reconhecer
quando já chega.

Por isso, hoje,
começo a abrir as mãos.

Deixo partir
algumas culpas.

Alguns medos.

Algumas memórias
que já não precisam
de viver comigo.

Não preciso de esquecer
para conseguir seguir.

Preciso apenas
de deixar de viver
dentro daquilo
que me magoou.

E, pouco a pouco,
o espaço aparece.

Primeiro,
um pequeno silêncio.

Depois,
uma respiração mais tranquila.

E finalmente
um lugar dentro de mim
onde posso voltar
a ouvir a minha própria voz.

Ainda existem dias
em que tudo ameaça transbordar.

Mas agora sei
que não preciso
de fechar todas as comportas.

Posso parar.

Posso respirar.

Posso pedir ajuda.

Posso deixar alguém aproximar-se.

Posso dizer:

“Hoje não consigo sozinho.”

E isso não me torna fraco.

Torna-me humano.

Talvez seja isso
que eu precisava aprender:

não fui feito
para guardar o mundo inteiro
dentro do peito.

Há coisas que precisam
de ser ditas.

Há dores que precisam
de ser choradas.

Há pesos que precisam
de ser pousados.

E há uma vida inteira
à minha espera
do outro lado
desse silêncio.

Por isso,
se hoje eu transbordar,

não vou ter vergonha.

Deixarei que tudo saia.

As lágrimas.

As palavras.

O medo.

A tristeza.

Tudo aquilo
que durante tanto tempo
tentei esconder.

E quando finalmente
restar apenas silêncio,

talvez consiga perceber
que não estava a desmoronar.

Estava apenas
a abrir espaço

para voltar

a respirar.

domingo, setembro 20, 2026

A Luz Que Eu Ainda Procuro


Há noites
em que olho para o céu
e parece que todas as estrelas
se esqueceram de mim.

Fico ali,
entre o silêncio e a esperança,
a tentar descobrir
se ainda existe alguma luz
capaz de me encontrar.

Já esperei demasiado
por respostas
que nunca chegaram.

Por uma mão
que aparecesse no momento certo.

Por alguém que dissesse
que tudo ficaria bem.

Mas aprendi
que nem sempre a luz
vem de fora.

Às vezes esperamos tanto
que alguém nos salve
que esquecemos
que ainda conseguimos
dar um passo sozinhos.

Eu também tive noites
em que pensei
que não havia amanhã.

Dias em que o coração
se cansou de acreditar.

Momentos em que a esperança
parecia apenas
uma palavra bonita
sem lugar na minha vida.

Mas continuei.

Mesmo sem saber porquê.

Continuei quando não tinha forças.

Continuei quando o caminho
parecia desaparecer
debaixo dos meus pés.

E talvez tenha sido aí
que alguma coisa mudou.

Percebi que não precisava
de ver o fim da noite
para acreditar na manhã.

Bastava continuar.

Um passo.

Depois outro.

Uma respiração.

Mais um dia.

Talvez a luz
que eu procurava
nunca chegasse da forma
como a imaginei.

Talvez não fosse
um acontecimento extraordinário,

nem uma resposta perfeita,

nem alguém a aparecer
para apagar todas as minhas dores.

Talvez fosse apenas
a pequena vontade
de não desistir.

Aquele instante
em que, mesmo cansado,
o coração diz:

“Mais uma vez.”

E eu ouvi.

Hoje ainda tenho cicatrizes.

Ainda existem dias
em que a escuridão
parece demasiado próxima.

Ainda há coisas
que não compreendo.

Mas já não tenho tanto medo
da noite.

Porque sei
que posso atravessá-la.

E, enquanto caminho,
vou aprendendo
a criar a minha própria luz.

Não uma luz perfeita.

Não uma luz que elimine
tudo o que dói.

Uma luz pequena,

mas verdadeira,

capaz de iluminar
apenas o próximo passo.

E talvez seja suficiente.

Porque não preciso
de saber onde termina
o caminho.

Preciso apenas
de continuar.

Até que um dia
olhe para trás

e perceba

que aquela luz
que esperei durante tanto tempo

não estava escondida
no fim da noite.

Estava comigo
desde o início.

Eu é que ainda
não tinha aprendido

a vê-la.

sábado, setembro 19, 2026

O Vazio Que Deixei Para Trás

Há dias em que sinto
que preciso de qualquer coisa
que me faça esquecer
a monotonia dos dias iguais.

Não procuro uma fuga.

Procuro uma sensação
que me acorde por dentro,
que faça o coração acelerar
e me devolva aquela vontade
de viver sem pensar demasiado.

Preciso de algo
que não tenha efeitos secundários,
que não me roube a lucidez,
mas que consiga transformar
um dia comum
num momento impossível de esquecer.

E então apareces tu.

Com esse sorriso
que desarma as minhas defesas,
com esse olhar
que parece saber exatamente
onde tocar
sem sequer me tocar.

Talvez sejas tu
aquilo que eu procurava
sem saber que procurava.

Não uma cura
para aquilo que me falta,

mas uma razão
para deixar de procurar.

Porque contigo
não preciso de esquecer o mundo.

Quero senti-lo.

Quero rir mais alto,
ficar acordado até tarde,
inventar planos sem sentido,
perder-me em conversas
que nunca queremos terminar.

Quero aquela vertigem
que começa num olhar
e termina num sorriso.

Quero a tua presença
nos meus dias bons
e nos dias em que tudo pesa.

Quero sentir
que ainda existe dentro de mim
uma parte capaz de se surpreender,
de desejar,
de sonhar
e de se apaixonar.

E se o amor tem mesmo
alguma espécie de loucura,

então talvez eu não queira
ser curado.

Quero apenas
continuar a sentir
esta coisa estranha e bonita
que acontece quando penso em ti.

Porque há pessoas
que nos fazem perder o equilíbrio.

E há pessoas
que nos fazem perceber
que nunca estivemos
tão vivos.

Tu és assim.

Não preciso de outra coisa.

Preciso apenas
desse instante em que apareces,

desse sorriso que fica comigo
mesmo depois de partires,

e dessa sensação
de que, por alguns momentos,

o mundo inteiro
fica exatamente
onde devia estar.

E talvez seja isso
que eu sempre procurei:

não algo que me faça
esquecer a vida,

mas alguém
que me faça

querer vivê-la

com muito mais intensidade.

sexta-feira, setembro 18, 2026

Também Eu Sinto


Há dias
em que tudo parece demasiado.

O mundo continua a girar,
as pessoas continuam a sorrir,
os relógios continuam a avançar,

mas dentro de mim
há qualquer coisa
que simplesmente não consegue acompanhar.

Há momentos
em que me sinto cansado
de fingir que sou forte.

De dizer que está tudo bem
quando, na verdade,
só queria encontrar
um lugar onde pudesse
baixar a guarda.

Também eu sinto.

Também eu me perco.

Também eu tenho dias
em que não sei
para onde levar aquilo
que trago dentro do peito.

Aprendi a esconder
muitas coisas atrás de um sorriso.

Talvez porque sempre achei
que mostrar a dor
era mostrar fraqueza.

Hoje sei que não é.

Há uma coragem silenciosa
em admitir:

“Hoje não estou bem.”

E não há vergonha nenhuma
em precisar de parar.

Em respirar.

Em chorar.

Em pedir um abraço
sem conseguir explicar
porquê.

Todos carregamos
batalhas que ninguém vê.

Há pessoas que sorriem
enquanto lutam contra tempestades
que nunca chegam
a contar a ninguém.

Eu também tenho as minhas.

Algumas deixaram cicatrizes.

Outras ainda doem.

Mas aprendi
que uma noite difícil
não significa que a vida
será sempre escura.

Há manhãs
que chegam devagar.

Há pequenas coisas
que conseguem devolver
um pouco de luz.

Uma palavra.

Um abraço.

Um olhar.

A presença de alguém
que fica
quando seria mais fácil partir.

E talvez seja isso
que mais precisamos
nos momentos difíceis:

não de alguém
que tenha todas as respostas,

mas de alguém
que simplesmente diga:

“Estou aqui.”

Por isso,
quando eu próprio me sentir perdido,

vou tentar lembrar-me
de que não preciso
de resolver tudo hoje.

Posso avançar devagar.

Posso descansar.

Posso recomeçar
quantas vezes forem necessárias.

Porque a dor passa por fases.

A saudade muda de forma.

As feridas aprendem
a fechar.

E aquilo que hoje parece
impossível de suportar
pode, um dia,
tornar-se apenas
uma memória de uma batalha
que consegui atravessar.

Também eu sinto.

Também eu sofro.

Mas também eu continuo.

E enquanto houver
um pequeno espaço
para a esperança,

uma razão para acordar,

um abraço para receber,

um coração para amar,

eu vou continuar
a escolher a vida.

Mesmo nos dias difíceis.

Mesmo quando não tenho respostas.

Mesmo quando a luz
parece demasiado distante.

Porque aprendi
que não é preciso
ser forte o tempo inteiro.

Às vezes,

ser forte

é simplesmente

não desistir

de chegar

ao próximo amanhecer.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Leva-me Contigo

Há momentos em que o mundo
parece parar por um instante,
e basta uma presença, um olhar,
para tudo ganhar outro significado.

Há uma força que nos aproxima,
uma vontade difícil de explicar,
como se o coração soubesse
antes de nós onde quer ficar.

Quero viver esse sentimento
sem medo do que possa acontecer,
deixar que a ternura nos envolva
e que o desejo nos ensine a sentir.

Porque há amores que não precisam de promessas,
nem de palavras perfeitas para existir.
Basta encontrar alguém
que nos faça querer ficar,
que transforme cada instante
num motivo para sorrir.

E se a vida nos der esse momento,
quero vivê-lo sem hesitar:
entregar-me àquilo que sentimos
e deixar o coração
levar-nos para onde quiser chegar.

quarta-feira, setembro 16, 2026

Nós Somos o Agora

Somos feitos de instantes,
de sonhos que ninguém consegue prender,
de noites que parecem eternas
e manhãs que nos ensinam a renascer.

Há um mundo inteiro lá fora,
mas quando estás junto de mim,
tudo parece mais pequeno,
como se o universo começasse aqui.

Somos aquilo que sentimos,
mesmo quando temos medo de sentir,
duas almas imperfeitas
que escolheram ficar,
mesmo sem saber onde ir.

E se o tempo mudar os nossos caminhos,
se o amanhã trouxer outra direção,
quero guardar aquilo que fomos:
a coragem de viver o presente
com o coração nas mãos.

Porque talvez a vida seja isto —
encontrar alguém no meio da multidão
e descobrir, num simples olhar,
que há encontros que não acontecem por acaso.

E enquanto houver céu sobre nós,
enquanto houver sonhos para alcançar,
quero estar contigo,
sem promessas impossíveis,
apenas com a certeza
de que juntos somos mais do que dois.

Somos o instante.
Somos o desejo.
Somos a esperança de continuar.

Somos nós
e, por agora,
isso é tudo o que preciso.

terça-feira, setembro 15, 2026

A Noite Dentro da Minha Cabeça


Há noites
em que o sono foge
e deixa para trás
um quarto cheio de pensamentos.

Fecho os olhos,

mas a mente permanece acordada,

a percorrer corredores
onde nenhuma porta
parece levar ao silêncio.

Uma pergunta chama outra.

Uma lembrança
acorda outra.

E aquilo que durante o dia
consigo esconder
ganha voz quando tudo
à minha volta
fica quieto.

Penso demasiado.

Sinto demasiado.

Revejo palavras,
gestos,
olhares,

como se existisse
alguma resposta escondida
num detalhe
que deixei escapar.

O relógio avança.

A noite fica mais profunda.

E eu continuo aqui,

preso entre o cansaço
do corpo
e a inquietação
da cabeça.

Há pensamentos
que não pedem licença.

Entram.

Sentam-se.

Ficam.

Transformam pequenas dúvidas
em tempestades
e coisas simples
em labirintos impossíveis.

Por vezes,

só queria desligar
por algumas horas
a máquina dentro de mim.

Não pensar.

Não procurar razões.

Não antecipar o amanhã.

Apenas respirar.

Mas a mente insiste
em construir cenários
que talvez nunca aconteçam,

em ressuscitar momentos
que já morreram,

em transformar
o passado
num lugar onde continuo
a viver.

Até que percebo:

nem todos os pensamentos
merecem uma resposta.

Nem todas as perguntas
precisam de ser resolvidas
durante a madrugada.

Há coisas
que só parecem enormes
porque a noite
as ilumina de forma diferente.

Então respiro.

Deixo o relógio continuar.

Deixo as sombras passar.

E digo a mim mesmo
que amanhã
será outro dia.

Talvez algumas respostas
cheguem com a luz.

Talvez outras
simplesmente deixem
de importar.

Por agora,

não preciso de vencer
a minha própria cabeça.

Preciso apenas
de lhe ensinar
que também existe silêncio.

Que nem tudo precisa
de ser pensado.

Que nem toda a dor
precisa de uma explicação.

E que, mesmo depois
da noite mais longa,

há sempre um instante
em que o céu começa
a clarear,

e a mente cansada
percebe finalmente

que sobreviver à escuridão
também é

uma forma

de encontrar

a manhã.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Desejo

Há desejos que chegam em silêncio,
sem pedir licença para ficar,
nascem num olhar demorado
e crescem sempre que tentamos disfarçar.

Há uma força invisível
que nos aproxima sem explicar,
como se o coração soubesse
antes de nós onde quer chegar.

É uma vontade que não se apaga,
mesmo quando tentamos resistir,
uma chama escondida no peito
que só precisa de um instante para ressurgir.

Talvez desejar seja isso:
sentir falta antes da partida,
querer tocar aquilo que nos chama
e deixar que o sentimento
nos conduza pela vida.

Porque existem encontros
que despertam qualquer coisa em nós,
uma inquietação doce e profunda
que transforma o silêncio
numa linguagem que só o coração entende.

E quando finalmente deixamos de lutar
contra aquilo que sentimos,
percebemos que alguns desejos
não vieram para passar.

Vieram para nos lembrar
de que ainda sabemos sentir.

domingo, setembro 13, 2026

Do Lado de Dentro

Há feridas
que ninguém vê.

Ficam escondidas
atrás de um sorriso,
entre palavras tranquilas
e silêncios cuidadosamente escolhidos.

Por fora,
pareço inteiro.

Por dentro,
há tempestades
que aprendi a atravessar sozinho.

Guardei demasiado tempo
aquilo que sentia.

Medo.

Desilusão.

Raiva.

E todas as palavras
que nunca encontrei coragem
para dizer.

Fui acumulando
pequenas dores
até que o coração
já não soube
onde guardar mais uma.

E então percebi:

não eram os outros
que mais me feriam.

Era tudo aquilo
que eu permitia
que continuasse a viver
dentro de mim.

Ressentimentos
que nunca me deixavam partir.

Memórias
que insistiam em voltar.

Promessas quebradas
que ainda esperavam
uma explicação.

Tive de olhar para dentro
sem desculpas.

Sem culpas.

Sem máscaras.

E reconhecer
que também eu
precisava de perdão.

Não para esquecer
o que aconteceu,

mas para deixar
de ser prisioneiro
daquilo que já passou.

Algumas pessoas
deixaram marcas.

Algumas despedidas
deixaram vazio.

Algumas palavras
mudaram para sempre
a forma como via o mundo.

Mas nenhuma delas
precisa de decidir
quem serei amanhã.

Hoje escolho
não carregar ódio.

Escolho não alimentar
as feridas.

Escolho transformar
a dor em compreensão
e as cicatrizes
em força.

Porque existe uma liberdade
que só encontramos
quando deixamos
de lutar contra o que sentimos.

Quando aceitamos
o que somos,

quando perdoamos
o que fomos,

e quando finalmente
abrimos espaço
para aquilo que ainda
podemos ser.

Talvez a verdadeira mudança
não aconteça quando
o mundo à nossa volta
se transforma.

Talvez aconteça
no instante silencioso
em que, do lado de dentro,

decidimos

que já não queremos
viver presos
àquilo que nos magoou.

sábado, setembro 12, 2026

Enquanto a Luz Não Volta


Há dias em que acordo
e sinto que o mundo
pesa mais do que devia.

Sorrio,

respondo que estou bem,

continuo a fazer
aquilo que esperam de mim,

mas há uma parte de mim
que só queria parar
por um instante
e respirar.

Aprendi a esconder o cansaço
atrás de palavras tranquilas.

A dizer “não é nada”
quando, por dentro,
há demasiado a acontecer.

Talvez porque sempre pensei
que precisava de ser forte.

Que não podia mostrar
quando estava cansado,

quando tinha medo,

quando precisava simplesmente
de alguém que dissesse:

“Fica aqui.
Não tens de enfrentar tudo sozinho.”

Hoje começo a perceber
que também tenho direito
a não estar bem.

Tenho direito
a abrandar.

A fechar os olhos
e deixar o mundo esperar.

A aceitar que algumas feridas
não desaparecem
porque fingimos que não existem.

E, quando a vida me parece
demasiado pesada,

lembro-me de que já atravessei
noites que pareciam não ter fim.

Também pensei, algumas vezes,
que não conseguiria.

E, no entanto,

a manhã chegou.

Sempre chegou.

Talvez seja isso
que preciso de recordar
nos dias mais difíceis:

não tenho de resolver
a minha vida inteira hoje.

Só preciso
de chegar ao amanhã.

Um passo.

Uma respiração.

Mais uma manhã.

Mais uma oportunidade
de voltar a sentir
aquilo que agora parece distante.

E se alguém que amo
estiver a passar
por uma tempestade,

quero que saiba
que não precisa de esconder
a dor de mim.

Pode pousar o peso
dos seus ombros.

Pode chorar.

Pode ficar em silêncio.

Eu fico.

Porque sei o que é
precisar de alguém
e não saber como pedir.

E talvez cuidar
também seja isto:

não tentar apagar
a escuridão de quem amamos,

mas permanecer ao seu lado
até que os olhos
se habituem novamente
à luz.

Por isso,
se hoje não conseguires sorrir,

não faz mal.

Se precisares de tempo,

eu espero.

Se precisares de silêncio,

eu fico em silêncio contigo.

E se amanhã
for apenas um pouco melhor,

já será suficiente.

Porque acredito
que há dores
que passam devagar,

corações
que precisam de tempo,

e pessoas
que, mesmo cansadas,

ainda conseguem
voltar a florescer.

Eu também estou a aprender isso.

A cuidar de mim.

A não exigir
que o coração seja forte
todos os dias.

E, enquanto aprendo,

continuo.

Porque ainda há manhãs
que não conheço,

abraços que ainda vou dar,

sorrisos que ainda vou descobrir

e momentos felizes
que ainda não chegaram.

E eu quero estar aqui

quando chegarem.