Houve um tempo
em que eu acreditava
que os sonhos eram feitos
para os outros.
Eu via o mundo
a acontecer diante dos meus olhos
e perguntava-me
onde tinha ficado
o lugar que um dia
imaginei para mim.
Tinha planos.
Tinha esperança.
Tinha aquela vontade
de chegar a algum lugar
onde tudo finalmente
fizesse sentido.
Mas a vida ensinou-me
que nem todos os caminhos
levam diretamente
ao que desejamos.
Alguns obrigam-nos
a perder-nos primeiro.
A atravessar noites
que parecem não ter fim.
A despedirmo-nos
de versões de nós
que já não conseguem
continuar connosco.
Também eu tive dias
em que deixei de acreditar.
Dias em que os sonhos
pareciam demasiado distantes
e o futuro
uma palavra sem significado.
Mas alguma coisa
dentro de mim
continuou a resistir.
Uma pequena voz
que dizia:
“Não é aqui que termina.”
E eu ouvi.
Talvez porque,
mesmo quando tudo parece perdido,
exista dentro de nós
um lugar que ninguém consegue destruir.
Um lugar onde ainda
somos capazes de sonhar.
Foi aí que voltei.
Não para procurar
a vida perfeita,
mas para descobrir
aquilo que realmente
me fazia feliz.
Percebi que o meu paraíso
não precisava de ser
um lugar distante.
Não precisava de riquezas.
Nem de grandes conquistas.
Talvez fosse simplesmente
ter alguém com quem partilhar
um momento bonito.
Ter paz
depois de tantos dias difíceis.
Rir sem motivo.
Acordar e sentir
que ainda vale a pena.
Olhar para o céu
e não sentir vontade
de fugir dele.
Talvez o paraíso
seja poder ser eu
sem medo.
Sem máscaras.
Sem precisar
de provar nada.
E talvez seja isso
que procuro agora:
um lugar onde o coração
não precise de estar sempre
em guerra consigo próprio.
Um lugar onde possa
amar sem medo,
sonhar sem vergonha,
e acreditar
sem precisar de garantias.
Ainda tenho cicatrizes.
Ainda existem dias
em que me sinto perdido.
Mas já não confundo
um dia difícil
com uma vida sem esperança.
Aprendi que até
as noites mais longas
acabam por abrir espaço
para a manhã.
E que alguns sonhos
não desaparecem.
Apenas esperam
que tenhamos coragem
de voltar a procurá-los.
Por isso, hoje,
não quero voltar atrás.
Quero continuar.
Mesmo devagar.
Mesmo sem saber
exatamente onde vou chegar.
Porque agora percebo
que talvez o paraíso
nunca tenha sido
o destino que eu procurava.
Talvez tenha sido
a vontade de continuar
a caminhar até ele.
E se um dia
eu conseguir olhar para trás
sem tristeza,
se conseguir sorrir
para tudo aquilo
que pensei ter perdido,
então saberei
que cheguei.
Não a um lugar perfeito.
Mas a mim.
E talvez seja esse
o verdadeiro paraíso:
acordar um dia
e perceber
que, depois de tudo,
ainda tenho sonhos,
ainda tenho amor,
ainda tenho esperança,
e ainda tenho dentro de mim
um lugar onde a vida
pode voltar a florescer.






