quarta-feira, outubro 07, 2026

O Meu Lugar no Paraíso


Houve um tempo
em que eu acreditava
que os sonhos eram feitos
para os outros.

Eu via o mundo
a acontecer diante dos meus olhos
e perguntava-me
onde tinha ficado
o lugar que um dia
imaginei para mim.

Tinha planos.

Tinha esperança.

Tinha aquela vontade
de chegar a algum lugar
onde tudo finalmente
fizesse sentido.

Mas a vida ensinou-me
que nem todos os caminhos
levam diretamente
ao que desejamos.

Alguns obrigam-nos
a perder-nos primeiro.

A atravessar noites
que parecem não ter fim.

A despedirmo-nos
de versões de nós
que já não conseguem
continuar connosco.

Também eu tive dias
em que deixei de acreditar.

Dias em que os sonhos
pareciam demasiado distantes
e o futuro
uma palavra sem significado.

Mas alguma coisa
dentro de mim
continuou a resistir.

Uma pequena voz
que dizia:

“Não é aqui que termina.”

E eu ouvi.

Talvez porque,
mesmo quando tudo parece perdido,
exista dentro de nós
um lugar que ninguém consegue destruir.

Um lugar onde ainda
somos capazes de sonhar.

Foi aí que voltei.

Não para procurar
a vida perfeita,

mas para descobrir
aquilo que realmente
me fazia feliz.

Percebi que o meu paraíso
não precisava de ser
um lugar distante.

Não precisava de riquezas.

Nem de grandes conquistas.

Talvez fosse simplesmente
ter alguém com quem partilhar
um momento bonito.

Ter paz
depois de tantos dias difíceis.

Rir sem motivo.

Acordar e sentir
que ainda vale a pena.

Olhar para o céu
e não sentir vontade
de fugir dele.

Talvez o paraíso
seja poder ser eu
sem medo.

Sem máscaras.

Sem precisar
de provar nada.

E talvez seja isso
que procuro agora:

um lugar onde o coração
não precise de estar sempre
em guerra consigo próprio.

Um lugar onde possa
amar sem medo,

sonhar sem vergonha,

e acreditar
sem precisar de garantias.

Ainda tenho cicatrizes.

Ainda existem dias
em que me sinto perdido.

Mas já não confundo
um dia difícil
com uma vida sem esperança.

Aprendi que até
as noites mais longas
acabam por abrir espaço
para a manhã.

E que alguns sonhos
não desaparecem.

Apenas esperam
que tenhamos coragem
de voltar a procurá-los.

Por isso, hoje,
não quero voltar atrás.

Quero continuar.

Mesmo devagar.

Mesmo sem saber
exatamente onde vou chegar.

Porque agora percebo
que talvez o paraíso
nunca tenha sido
o destino que eu procurava.

Talvez tenha sido
a vontade de continuar
a caminhar até ele.

E se um dia
eu conseguir olhar para trás
sem tristeza,

se conseguir sorrir
para tudo aquilo
que pensei ter perdido,

então saberei
que cheguei.

Não a um lugar perfeito.

Mas a mim.

E talvez seja esse
o verdadeiro paraíso:

acordar um dia
e perceber

que, depois de tudo,

ainda tenho sonhos,

ainda tenho amor,

ainda tenho esperança,

e ainda tenho dentro de mim
um lugar onde a vida
pode voltar a florescer.

terça-feira, outubro 06, 2026

Hoje, Sinto-me Só


Hoje estou triste.

Não é uma tristeza passageira,
daquelas que chegam
e desaparecem com o amanhecer.

É uma tristeza que ficou.

Que se sentou dentro de mim
e parece não ter pressa
de partir.

Estou desiludido.

Com algumas pessoas.

Com algumas palavras
que um dia acreditei.

Com algumas promessas
que pareciam verdade
e acabaram por ser apenas
mais uma ferida.

Estou desapontado.

Talvez porque esperava demais.

Talvez porque dei demasiado.

Talvez porque, no fundo,
só queria sentir
que aquilo que eu sentia
também tinha importância
para alguém.

Hoje sinto-me infeliz.

E custa admitir isso.

Porque tantas vezes
aprendi a sorrir
quando queria chorar,

a dizer “está tudo bem”
quando tudo dentro de mim
pedia para parar.

Estou cansado
de fingir que sou forte.

Cansado de esconder
aquilo que sinto
para não incomodar ninguém.

E o pior de tudo
é sentir-me completamente só
mesmo quando existem pessoas
à minha volta.

Porque a solidão
nem sempre acontece
quando não temos ninguém.

Às vezes acontece
quando temos alguém
e, ainda assim,
sentimos que não temos
onde pousar o coração.

Hoje precisava de um abraço.

Daqueles que não fazem perguntas.

Que não procuram respostas.

Que simplesmente dizem:

“Estou aqui.”

Precisava de alguém
que olhasse para mim
e percebesse
que por detrás do silêncio
há muito que eu não consigo dizer.

Não quero pena.

Não quero que me salvem.

Quero apenas
não me sentir sozinho
enquanto tento
encontrar novamente
o caminho para mim.

Talvez amanhã
seja diferente.

Talvez a tristeza
comece a perder força.

Talvez volte a sorrir
sem precisar de fingir.

Mas hoje,

hoje eu só consigo dizer
a verdade:

estou triste,

desiludido,

desapontado,

infeliz

e completamente só.

E, pela primeira vez,
não vou esconder isso.

Vou deixar a tristeza existir.

Vou deixar-me sentir.

Porque talvez reconhecer
que estou no fundo
seja também
o primeiro passo
para começar a subir.

E se ninguém estiver comigo
neste momento,

eu vou tentar ficar
comigo próprio.

Mesmo cansado.

Mesmo ferido.

Mesmo sem saber
o que vem depois.

Porque, no meio de toda esta solidão,

ainda existe uma parte de mim
que, apesar de tudo,

não desistiu.

segunda-feira, outubro 05, 2026

O Homem Que Vejo em Mim


Hoje parei diante do espelho

e, pela primeira vez,
não procurei defeitos.

Fiquei apenas a olhar.

Para os olhos cansados.

Para as marcas
que o tempo deixou.

Para tudo aquilo
que vivi
e que trouxe comigo
até aqui.

E percebi
que passei demasiado tempo
a esperar que o mundo mudasse,

sem perguntar
o que eu podia mudar em mim.

Culpei a vida.

Culpei as circunstâncias.

Culpei pessoas
que me magoaram.

Algumas vezes
tive razão.

Outras,
talvez não.

Mas hoje não quero
procurar culpados.

Quero procurar respostas.

Porque há coisas
que não posso controlar,

mas há uma coisa
que depende de mim:

a pessoa que escolho ser
a partir de agora.

Posso continuar
a carregar ressentimentos
como se fossem parte
da minha identidade.

Ou posso pousá-los.

Posso continuar
a alimentar as feridas
com memórias do passado.

Ou posso começar
a deixá-las cicatrizar.

Posso continuar
a esperar que alguém
me dê aquilo
que eu próprio
não tenho dado a mim.

Ou posso começar
a cuidar de mim
com a mesma paciência
que tantas vezes
tive para os outros.

Não quero ser perfeito.

Quero ser verdadeiro.

Quero aprender
a pedir desculpa
quando errar.

A agradecer
quando receber.

A ouvir
antes de responder.

A amar
sem precisar de possuir.

A estender a mão
mesmo quando seria mais fácil
virar costas.

Quero que as minhas palavras
tenham o mesmo valor
que os meus gestos.

Quero que aquilo
que sou quando ninguém olha
seja digno daquilo
que mostro ao mundo.

Porque não adianta
falar de mudança
se continuo a repetir
os mesmos erros.

Não adianta
pedir mais amor
se continuo a levantar muros.

Não adianta
esperar por um mundo melhor
se eu próprio
não estiver disposto
a ser melhor dentro dele.

Por isso, hoje,
começo comigo.

Não com promessas gigantes.

Não com discursos.

Começo pequeno.

Com uma escolha.

Depois outra.

E mais outra.

Até que aquilo que faço
comece finalmente
a parecer-se
com aquilo em que acredito.

Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.

Mas posso mudar
a maneira como atravesso
o mundo.

Posso ser mais gentil.

Mais presente.

Mais humano.

Posso deixar
um pouco de luz
por onde passar.

E talvez seja assim
que as grandes mudanças
realmente começam:

não quando alguém
grita mais alto,

mas quando uma pessoa
decide olhar para dentro
e dizer:

“Eu posso fazer diferente.”

Hoje volto a olhar
para o espelho.

Ainda vejo cicatrizes.

Ainda vejo erros.

Ainda vejo coisas
que preciso de aprender.

Mas também vejo alguém
que não desistiu.

E isso basta
para começar.

Não quero continuar
a perguntar
quando o mundo vai mudar.

Quero perguntar
o que posso mudar em mim
para que o mundo,
mesmo que só um pouco,

se torne diferente
depois de eu passar por ele.

Porque talvez
a transformação que procuro
não esteja lá fora.

Talvez tenha estado sempre aqui.

Diante de mim.

À espera
que eu tivesse coragem
de me reconhecer.

domingo, outubro 04, 2026

Que Tempo Foi Este


Há pessoas que chegam
sem avisar que vão ficar,
e momentos que começam
sem sabermos que um dia
iremos sentir saudades deles.

Contigo foi assim.

Não houve grandes promessas,
nem certezas escritas no futuro.
Houve apenas nós,
alguns risos,
alguns silêncios
e aquele estranho sentimento
de que, por um instante,
o mundo tinha parado.

Ainda me lembro
de como era fácil esquecer as horas,
de como uma conversa podia durar
mais do que a noite,
e de como a tua presença
conseguia tornar especial
um momento que, sozinho,
seria apenas mais um.

Talvez seja isso
que torna certas histórias
tão difíceis de deixar para trás:

não é apenas a pessoa
que nos faz falta.

É quem éramos
quando estávamos com ela.

Hoje, quando penso em nós,
não sei se sinto saudade
ou apenas gratidão
por ter vivido aquilo.

Talvez um pouco dos dois.

Porque houve coisas bonitas
que não precisaram de durar para sempre
para serem verdadeiras.

Houve um tempo
em que fomos exatamente
aquilo de que precisávamos.

E mesmo que a vida tenha seguido,
mesmo que os caminhos tenham mudado,
há memórias que continuam
a aparecer de vez em quando,
como uma música antiga
que ainda sabemos cantar.

E eu pergunto-me:

que tempo foi este?

Como conseguimos ser tão próximos
e, depois, tão distantes?

Como pode alguém
ocupar tanto espaço dentro de nós
e, um dia,
passar a viver apenas
numa memória?

Não tenho respostas.

E talvez já não precise delas.

Prefiro guardar o que foi bonito
sem transformar o passado
num lugar onde preciso de voltar.

Porque algumas pessoas
não entram na nossa vida
para ficar.

Entram para nos ensinar
que somos capazes de sentir,
de confiar,
de rir sem pensar no amanhã
e de viver momentos
que, mesmo breves,
podem permanecer conosco
durante muitos anos.

E se algum dia
me perguntarem por ti,
talvez eu sorria.

Não porque tenha esquecido.

Mas porque, apesar de tudo,
posso olhar para trás
e dizer baixinho:

que tempo bonito foi este
enquanto durou.

sábado, outubro 03, 2026

Não Te Devo Mais Nada


Houve um tempo

em que eu procurava desculpas por ti,
inventava razões para justificar
aquilo que, no fundo,
eu já sabia que estava errado.

Dizia a mim próprio
que talvez fosse apenas uma fase,
que talvez um dia mudasses,
que talvez eu estivesse a exigir demais.

E fui ficando.

Fui engolindo palavras,
calando o que sentia,
aceitando migalhas
como se fossem gestos de amor.

Até perceber
que amar alguém
não devia obrigar-me
a deixar de gostar de mim.

Hoje já não quero respostas.
Já não preciso que reconheças
o que fizeste ou o que perdeste.

Também já não quero
ser aquele que espera,
que perdoa tudo,
que volta sempre
ao mesmo lugar
à procura de uma versão tua
que talvez nunca tenha existido.

Acabou.

E, pela primeira vez,
essa palavra não me assusta.

Não te desejo mal.
Não preciso disso.

Quero apenas distância
entre aquilo que fui contigo
e aquilo que estou finalmente
a aprender a ser sem ti.

Leva contigo
as promessas que não cumpriste,
as palavras que ficaram vazias
e todas as vezes
em que me fizeste duvidar
do meu próprio valor.

Eu fico com as lições.

Fico com as cicatrizes,
com a força que descobri
quando já não tinha mais nada
para me agarrar.

E fico, sobretudo,
com a liberdade
de não voltar atrás.

Porque hoje sei:

não te devo explicações,
não te devo outra oportunidade,
não te devo mais lágrimas
nem mais uma noite
a tentar perceber-te.

A única coisa que te devo
é o silêncio de quem finalmente
deixou de esperar.

E a mim
devo tudo aquilo
que durante tanto tempo
te dei a ti.

O meu tempo.
A minha paz.
A minha dignidade.
A minha vida.

Agora são minhas outra vez.

E desta vez,
não as entrego
a quem não soube cuidar delas.

sexta-feira, outubro 02, 2026

O Salto Que Ainda Não Dei


Passei demasiado tempo

a viver no limite das coisas,
com um pé no chão
e outro numa vontade
que nunca tive coragem de seguir.

Aprendi a olhar para o vazio
e a chamar-lhe prudência.
A dizer que ainda não era o momento,
que talvez amanhã fosse melhor,
que talvez fosse mais seguro
ficar onde já conheço as feridas.

Mas há alturas
em que permanecer parado
também é uma forma de cair.

E eu já não quero
passar a vida inteira
a imaginar como seria
se tivesse tido coragem.

Quero saltar.

Não sei onde vou chegar.
Não sei se haverá chão
ou se terei de aprender
a construir asas pelo caminho.

Sei apenas que existe dentro de mim
uma vontade que já não consigo calar,
uma espécie de fogo tranquilo
a dizer-me que a vida
não foi feita para ser apenas observada.

Talvez eu tenha medo.

Claro que tenho.

Tenho medo de perder,
de me enganar,
de voltar a entregar-me
e descobrir que, afinal,
algumas pessoas
não sabem ficar.

Mas também tenho medo
de acordar um dia
e perceber que deixei passar
tudo aquilo que poderia ter vivido
porque tive demasiado medo
de tentar.

Por isso, desta vez,
não quero garantias.

Quero movimento.

Quero fechar os olhos,
respirar fundo
e dar aquele passo
que tantas vezes adiei.

Se tiver de cair,
cairei.

Se tiver de começar de novo,
começarei.

Mas pelo menos saberei
que fui eu quem escolheu
não ficar preso
ao lugar onde o medo
me queria manter.

Talvez seja isto crescer:

não deixar de ter medo,
mas deixar de obedecer-lhe.

E talvez,
do outro lado deste salto,
não esteja a resposta
que procuro há tanto tempo.

Talvez esteja apenas
uma versão de mim
que finalmente descobriu
que viver
também é arriscar-se
a não saber o que vem depois.

quinta-feira, outubro 01, 2026

O Amor É Uma Coisa Estranha


Nunca percebi muito bem
como funciona o amor.

Chega quando não estamos preparados,
fica quando pensamos que já aprendemos,
e desaparece justamente
quando começamos a acreditar
que finalmente sabemos o que fazer.

É estranho.

Às vezes, quero estar perto,
mesmo quando preciso de espaço.
Quero ouvir a tua voz
e, ao mesmo tempo,
tenho medo daquilo que ela pode despertar em mim.

Quero dizer-te tudo,
mas há sentimentos
que parecem maiores do que as palavras.

E então fico calado.

Não porque não sinta.

Talvez porque sinto demasiado.

O amor tem destas coisas.

Faz-me procurar alguém
mesmo quando digo que estou bem sozinho.
Faz-me sorrir para o telemóvel
por causa de uma simples mensagem.
Faz-me reparar em pequenos gestos
que provavelmente nem percebeste que fizeste.

E também me assusta.

Porque quando alguém passa a importar,
passamos a ter alguma coisa a perder.

E eu já perdi.

Talvez por isso
às vezes tente controlar aquilo
que não pode ser controlado.

Tento perceber o que sentes,
o que pensas,
onde isto vai chegar.

Como se o coração
fosse uma equação
que pudesse resolver.

Mas não é.

O amor não explica.

Não avisa.

Não segue regras.

É rir quando devia estar sério,
sentir saudades antes da despedida,
querer fugir e ficar ao mesmo tempo,
ter medo de cair
e ainda assim aproximar-me.

É olhar para alguém
e perceber que, de alguma forma,
essa pessoa começou a fazer parte
dos meus pensamentos,
dos meus planos,
dos meus dias.

Sem pedir licença.

E talvez seja isso
que o torna tão estranho.

O amor não precisa de fazer sentido
para ser verdadeiro.

Talvez eu nunca aprenda
a gostar da maneira certa.

Talvez continue a ter medo,
a duvidar,
a pensar demais
e a complicar aquilo
que podia ser simples.

Mas hoje sei uma coisa:

prefiro sentir esta confusão
a voltar a ser indiferente.

Porque, apesar de todas as contradições,
de todas as dúvidas
e de todas as vezes
em que o coração me assusta,

ainda quero amar.

Ainda quero encontrar alguém
com quem possa ser eu,
sem máscaras,
sem jogos,
sem precisar de fingir
que não me importo.

Porque talvez o amor seja mesmo isto:

uma coisa estranha,
imprevisível,
por vezes assustadora...

mas tão bonita
que, mesmo depois de tudo,
ainda me faz querer tentar.