Durante demasiado tempo
tentei manter de pé
aquilo que já estava a cair.
Segurei pontes
construídas com promessas,
palavras partidas
e silêncios
que ninguém quis explicar.
Continuei a atravessá-las
mesmo quando cada passo
me dizia
que já não havia caminho
para o outro lado.
Fiquei.
Tentei compreender.
Perdoei mais vezes
do que devia.
E, cada vez que alguma coisa
me quebrava por dentro,
convencia-me de que era preciso
mais um esforço.
Mais uma oportunidade.
Mais uma tentativa.
Até perceber
que algumas pontes
não existem para nos levar
a algum lugar.
Existem apenas
para nos manter presos
ao lugar de onde tentamos sair.
Foi então que parei.
Olhei para trás
e vi tudo aquilo
que carregava comigo:
culpas que não eram minhas,
palavras que nunca devia
ter aceitado,
promessas que nunca foram cumpridas
e uma versão de mim
que passou demasiado tempo
a tentar ser suficiente
para alguém.
E percebi
que não precisava
de reconstruir aquela ponte.
Precisava de a deixar ir.
Não por ódio.
Não por vingança.
Mas porque finalmente
entendi que seguir em frente
também significa
saber quando parar de voltar.
Há despedidas
que parecem destruição,
mas são apenas
a forma que a vida encontra
de abrir espaço
para começarmos de novo.
Por isso, desta vez,
não vou olhar para trás
à procura de uma razão
para regressar.
Vou levar comigo
apenas aquilo que aprendi.
As cicatrizes.
A força.
A coragem
de ter sobrevivido
a tudo aquilo
que um dia pensei
que me destruiria.
E deixarei o resto
do outro lado.
Sem ressentimento.
Sem promessas.
Sem a necessidade
de provar nada a ninguém.
Porque descobri
que a minha paz
vale mais do que qualquer ponte
que me obrigue
a voltar ao passado.
Talvez um dia
olhe para aquele lugar
e já não sinta dor.
Talvez apenas gratidão
por ter tido coragem
de partir.
E quando isso acontecer,
vou perceber
que não perdi um caminho.
Ganhei liberdade.
Ganhei espaço
para respirar.
Ganhei a possibilidade
de construir algo novo
sem carregar
as ruínas do que ficou para trás.
A ponte pode desaparecer.
As memórias podem permanecer.
Mas eu continuo.
E desta vez,
não vou atravessar
para voltar ao passado.
Vou seguir em frente
até encontrar
um lugar onde não precise
de me perder
para conseguir ficar.

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