Houve um tempo
em que eu procurava desculpas por ti,
inventava razões para justificar
aquilo que, no fundo,
eu já sabia que estava errado.
Dizia a mim próprio
que talvez fosse apenas uma fase,
que talvez um dia mudasses,
que talvez eu estivesse a exigir demais.
E fui ficando.
Fui engolindo palavras,
calando o que sentia,
aceitando migalhas
como se fossem gestos de amor.
Até perceber
que amar alguém
não devia obrigar-me
a deixar de gostar de mim.
Hoje já não quero respostas.
Já não preciso que reconheças
o que fizeste ou o que perdeste.
Também já não quero
ser aquele que espera,
que perdoa tudo,
que volta sempre
ao mesmo lugar
à procura de uma versão tua
que talvez nunca tenha existido.
Acabou.
E, pela primeira vez,
essa palavra não me assusta.
Não te desejo mal.
Não preciso disso.
Quero apenas distância
entre aquilo que fui contigo
e aquilo que estou finalmente
a aprender a ser sem ti.
Leva contigo
as promessas que não cumpriste,
as palavras que ficaram vazias
e todas as vezes
em que me fizeste duvidar
do meu próprio valor.
Eu fico com as lições.
Fico com as cicatrizes,
com a força que descobri
quando já não tinha mais nada
para me agarrar.
E fico, sobretudo,
com a liberdade
de não voltar atrás.
Porque hoje sei:
não te devo explicações,
não te devo outra oportunidade,
não te devo mais lágrimas
nem mais uma noite
a tentar perceber-te.
A única coisa que te devo
é o silêncio de quem finalmente
deixou de esperar.
E a mim
devo tudo aquilo
que durante tanto tempo
te dei a ti.
O meu tempo.
A minha paz.
A minha dignidade.
A minha vida.
Agora são minhas outra vez.
E desta vez,
não as entrego
a quem não soube cuidar delas.

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