segunda-feira, setembro 21, 2026

Quando já não cabe mais


Durante muito tempo
fui guardando tudo dentro de mim.

As palavras que não disse.

As lágrimas que escondi.

As perguntas sem resposta.

Os medos que fingi não ter.

Fui enchendo espaços
que já estavam demasiado apertados,

convencendo-me
de que conseguia carregar tudo
sem deixar nada cair.

Por fora,
continuava a ser eu.

Sorria.

Falava.

Fazia o que tinha de fazer.

Mas por dentro
havia qualquer coisa
a transbordar lentamente.

Pensamentos sobre pensamentos.

Memórias sobre memórias.

Sentimentos que nunca encontraram
um lugar para descansar.

E quanto mais tentava controlar,
mais difícil se tornava respirar.

Havia dias
em que a minha própria cabeça
parecia uma sala sem janelas,

cheia de vozes
a falar ao mesmo tempo.

Queria silêncio.

Queria espaço.

Queria simplesmente
sentir alguma coisa
sem precisar de a compreender.

Até perceber
que não posso continuar
a guardar tudo.

Que também tenho direito
a dizer que dói.

A admitir que estou cansado.

A deixar cair
aquilo que já não consigo carregar.

Talvez eu tenha confundido
força com resistência.

Talvez ser forte
não seja suportar tudo em silêncio,

mas ter coragem
para reconhecer
quando já chega.

Por isso, hoje,
começo a abrir as mãos.

Deixo partir
algumas culpas.

Alguns medos.

Algumas memórias
que já não precisam
de viver comigo.

Não preciso de esquecer
para conseguir seguir.

Preciso apenas
de deixar de viver
dentro daquilo
que me magoou.

E, pouco a pouco,
o espaço aparece.

Primeiro,
um pequeno silêncio.

Depois,
uma respiração mais tranquila.

E finalmente
um lugar dentro de mim
onde posso voltar
a ouvir a minha própria voz.

Ainda existem dias
em que tudo ameaça transbordar.

Mas agora sei
que não preciso
de fechar todas as comportas.

Posso parar.

Posso respirar.

Posso pedir ajuda.

Posso deixar alguém aproximar-se.

Posso dizer:

“Hoje não consigo sozinho.”

E isso não me torna fraco.

Torna-me humano.

Talvez seja isso
que eu precisava aprender:

não fui feito
para guardar o mundo inteiro
dentro do peito.

Há coisas que precisam
de ser ditas.

Há dores que precisam
de ser choradas.

Há pesos que precisam
de ser pousados.

E há uma vida inteira
à minha espera
do outro lado
desse silêncio.

Por isso,
se hoje eu transbordar,

não vou ter vergonha.

Deixarei que tudo saia.

As lágrimas.

As palavras.

O medo.

A tristeza.

Tudo aquilo
que durante tanto tempo
tentei esconder.

E quando finalmente
restar apenas silêncio,

talvez consiga perceber
que não estava a desmoronar.

Estava apenas
a abrir espaço

para voltar

a respirar.

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