Eu ainda acredito
que algumas coisas bonitas
começam de forma quase invisível.
Uma palavra.
Um gesto.
Um pouco de ternura
num mundo que tantas vezes
se esquece de ser gentil.
Eu próprio já me cansei
de ver tanta coisa
a nascer do medo,
da raiva,
da indiferença,
como se endurecer o coração
fosse a única maneira
de sobreviver.
Mas eu não quero ser assim.
Quero plantar outra coisa.
Quero deixar no caminho
mais compreensão
do que julgamento,
mais abraços
do que distâncias,
mais esperança
do que desconfiança.
Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.
Talvez algumas feridas
sejam demasiado profundas
para serem curadas
por uma única pessoa.
Mas posso começar
por aquilo que está
ao meu alcance.
Posso escolher
as palavras que digo.
A forma como olho.
A maneira como trato
quem cruza o meu caminho.
Posso ser abrigo
num dia de tempestade.
Posso ser silêncio
quando alguém precisar
apenas de ser ouvido.
Posso estender a mão
sem perguntar
se a pessoa merece.
Porque talvez o amor
não seja apenas
aquilo que sentimos
por alguém especial.
Talvez também seja
aquilo que decidimos
deixar no mundo
depois de passarmos por ele.
E eu quero deixar luz.
Mesmo que seja pequena.
Mesmo que ninguém saiba
que fui eu quem a acendeu.
Quero acreditar
que uma coisa boa
pode gerar outra.
Que um sorriso
pode mudar um dia.
Que uma palavra
pode impedir uma despedida.
Que um gesto de carinho
pode devolver esperança
a alguém que já tinha desistido
de a procurar.
Eu também tenho
as minhas sombras.
Não sou feito apenas
de bondade ou certezas.
Tenho erros.
Tenho cicatrizes.
Tenho dias
em que também me perco.
Mas talvez seja precisamente
por conhecer a escuridão
que hoje dou mais valor
a qualquer pequena luz.
Por isso,
se tiver de escolher
o que quero cultivar,
escolho a esperança.
Escolho o amor.
Escolho a coragem
de continuar a acreditar
nas pessoas,
mesmo depois
de algumas me terem desiludido.
E se amanhã
alguém encontrar
uma pequena semente
no lugar por onde passei,
espero que a plante.
Que a regue.
Que tenha paciência
com os dias em que nada parece acontecer.
Porque algumas das coisas
mais bonitas da vida
crescem longe dos nossos olhos.
Talvez um dia
essas sementes floresçam
num lugar que nunca conhecerei.
E isso será suficiente para mim.
Porque já não preciso
de ver o resultado
de tudo aquilo que faço.
Quero apenas saber
que, enquanto estive aqui,
não deixei o mundo
exatamente igual
à forma como o encontrei.
Se consegui tornar
um único coração
um pouco mais leve,
se consegui devolver
um pouco de esperança
a alguém,
se consegui fazer
uma pessoa acreditar
que ainda vale a pena amar,
então já terá valido a pena.
E é assim que quero seguir:
com as mãos cheias
de sementes,
o coração aberto
ao inesperado
e a certeza
de que ainda há coisas bonitas
por nascer.
Talvez o futuro
não esteja escrito.
Talvez dependa também
daquilo que decidimos plantar hoje.
E eu,
se puder escolher,
vou plantar amor.
Vou plantar esperança.
Vou plantar aquilo
que gostaria de encontrar
quando olhar para o mundo
amanhã.

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