segunda-feira, outubro 05, 2026

O Homem Que Vejo em Mim


Hoje parei diante do espelho

e, pela primeira vez,
não procurei defeitos.

Fiquei apenas a olhar.

Para os olhos cansados.

Para as marcas
que o tempo deixou.

Para tudo aquilo
que vivi
e que trouxe comigo
até aqui.

E percebi
que passei demasiado tempo
a esperar que o mundo mudasse,

sem perguntar
o que eu podia mudar em mim.

Culpei a vida.

Culpei as circunstâncias.

Culpei pessoas
que me magoaram.

Algumas vezes
tive razão.

Outras,
talvez não.

Mas hoje não quero
procurar culpados.

Quero procurar respostas.

Porque há coisas
que não posso controlar,

mas há uma coisa
que depende de mim:

a pessoa que escolho ser
a partir de agora.

Posso continuar
a carregar ressentimentos
como se fossem parte
da minha identidade.

Ou posso pousá-los.

Posso continuar
a alimentar as feridas
com memórias do passado.

Ou posso começar
a deixá-las cicatrizar.

Posso continuar
a esperar que alguém
me dê aquilo
que eu próprio
não tenho dado a mim.

Ou posso começar
a cuidar de mim
com a mesma paciência
que tantas vezes
tive para os outros.

Não quero ser perfeito.

Quero ser verdadeiro.

Quero aprender
a pedir desculpa
quando errar.

A agradecer
quando receber.

A ouvir
antes de responder.

A amar
sem precisar de possuir.

A estender a mão
mesmo quando seria mais fácil
virar costas.

Quero que as minhas palavras
tenham o mesmo valor
que os meus gestos.

Quero que aquilo
que sou quando ninguém olha
seja digno daquilo
que mostro ao mundo.

Porque não adianta
falar de mudança
se continuo a repetir
os mesmos erros.

Não adianta
pedir mais amor
se continuo a levantar muros.

Não adianta
esperar por um mundo melhor
se eu próprio
não estiver disposto
a ser melhor dentro dele.

Por isso, hoje,
começo comigo.

Não com promessas gigantes.

Não com discursos.

Começo pequeno.

Com uma escolha.

Depois outra.

E mais outra.

Até que aquilo que faço
comece finalmente
a parecer-se
com aquilo em que acredito.

Talvez eu não consiga
mudar o mundo inteiro.

Mas posso mudar
a maneira como atravesso
o mundo.

Posso ser mais gentil.

Mais presente.

Mais humano.

Posso deixar
um pouco de luz
por onde passar.

E talvez seja assim
que as grandes mudanças
realmente começam:

não quando alguém
grita mais alto,

mas quando uma pessoa
decide olhar para dentro
e dizer:

“Eu posso fazer diferente.”

Hoje volto a olhar
para o espelho.

Ainda vejo cicatrizes.

Ainda vejo erros.

Ainda vejo coisas
que preciso de aprender.

Mas também vejo alguém
que não desistiu.

E isso basta
para começar.

Não quero continuar
a perguntar
quando o mundo vai mudar.

Quero perguntar
o que posso mudar em mim
para que o mundo,
mesmo que só um pouco,

se torne diferente
depois de eu passar por ele.

Porque talvez
a transformação que procuro
não esteja lá fora.

Talvez tenha estado sempre aqui.

Diante de mim.

À espera
que eu tivesse coragem
de me reconhecer.

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