terça-feira, setembro 15, 2026

A Noite Dentro da Minha Cabeça


Há noites
em que o sono foge
e deixa para trás
um quarto cheio de pensamentos.

Fecho os olhos,

mas a mente permanece acordada,

a percorrer corredores
onde nenhuma porta
parece levar ao silêncio.

Uma pergunta chama outra.

Uma lembrança
acorda outra.

E aquilo que durante o dia
consigo esconder
ganha voz quando tudo
à minha volta
fica quieto.

Penso demasiado.

Sinto demasiado.

Revejo palavras,
gestos,
olhares,

como se existisse
alguma resposta escondida
num detalhe
que deixei escapar.

O relógio avança.

A noite fica mais profunda.

E eu continuo aqui,

preso entre o cansaço
do corpo
e a inquietação
da cabeça.

Há pensamentos
que não pedem licença.

Entram.

Sentam-se.

Ficam.

Transformam pequenas dúvidas
em tempestades
e coisas simples
em labirintos impossíveis.

Por vezes,

só queria desligar
por algumas horas
a máquina dentro de mim.

Não pensar.

Não procurar razões.

Não antecipar o amanhã.

Apenas respirar.

Mas a mente insiste
em construir cenários
que talvez nunca aconteçam,

em ressuscitar momentos
que já morreram,

em transformar
o passado
num lugar onde continuo
a viver.

Até que percebo:

nem todos os pensamentos
merecem uma resposta.

Nem todas as perguntas
precisam de ser resolvidas
durante a madrugada.

Há coisas
que só parecem enormes
porque a noite
as ilumina de forma diferente.

Então respiro.

Deixo o relógio continuar.

Deixo as sombras passar.

E digo a mim mesmo
que amanhã
será outro dia.

Talvez algumas respostas
cheguem com a luz.

Talvez outras
simplesmente deixem
de importar.

Por agora,

não preciso de vencer
a minha própria cabeça.

Preciso apenas
de lhe ensinar
que também existe silêncio.

Que nem tudo precisa
de ser pensado.

Que nem toda a dor
precisa de uma explicação.

E que, mesmo depois
da noite mais longa,

há sempre um instante
em que o céu começa
a clarear,

e a mente cansada
percebe finalmente

que sobreviver à escuridão
também é

uma forma

de encontrar

a manhã.

Sem comentários: