Há noites
em que o sono foge
e deixa para trás
um quarto cheio de pensamentos.
Fecho os olhos,
mas a mente permanece acordada,
a percorrer corredores
onde nenhuma porta
parece levar ao silêncio.
Uma pergunta chama outra.
Uma lembrança
acorda outra.
E aquilo que durante o dia
consigo esconder
ganha voz quando tudo
à minha volta
fica quieto.
Penso demasiado.
Sinto demasiado.
Revejo palavras,
gestos,
olhares,
como se existisse
alguma resposta escondida
num detalhe
que deixei escapar.
O relógio avança.
A noite fica mais profunda.
E eu continuo aqui,
preso entre o cansaço
do corpo
e a inquietação
da cabeça.
Há pensamentos
que não pedem licença.
Entram.
Sentam-se.
Ficam.
Transformam pequenas dúvidas
em tempestades
e coisas simples
em labirintos impossíveis.
Por vezes,
só queria desligar
por algumas horas
a máquina dentro de mim.
Não pensar.
Não procurar razões.
Não antecipar o amanhã.
Apenas respirar.
Mas a mente insiste
em construir cenários
que talvez nunca aconteçam,
em ressuscitar momentos
que já morreram,
em transformar
o passado
num lugar onde continuo
a viver.
Até que percebo:
nem todos os pensamentos
merecem uma resposta.
Nem todas as perguntas
precisam de ser resolvidas
durante a madrugada.
Há coisas
que só parecem enormes
porque a noite
as ilumina de forma diferente.
Então respiro.
Deixo o relógio continuar.
Deixo as sombras passar.
E digo a mim mesmo
que amanhã
será outro dia.
Talvez algumas respostas
cheguem com a luz.
Talvez outras
simplesmente deixem
de importar.
Por agora,
não preciso de vencer
a minha própria cabeça.
Preciso apenas
de lhe ensinar
que também existe silêncio.
Que nem tudo precisa
de ser pensado.
Que nem toda a dor
precisa de uma explicação.
E que, mesmo depois
da noite mais longa,
há sempre um instante
em que o céu começa
a clarear,
e a mente cansada
percebe finalmente
que sobreviver à escuridão
também é
uma forma
de encontrar
a manhã.

Sem comentários:
Enviar um comentário