sexta-feira, setembro 25, 2026

Voltar a Construir


Há coisas em mim
que já não reconheço.

Pequenas partes
que foram ficando pelo caminho,

entre escolhas que fiz,
palavras que calei
e sonhos que deixei
à espera de um momento melhor.

Olho para aquilo que fui
e percebo que algumas versões de mim
precisavam mesmo de desaparecer.

Não porque fossem fracas,

mas porque já não sabiam
como continuar a viver
sem carregar tudo às costas.

Às vezes é preciso
deixar uma estrutura cair
para perceber
o que realmente merece
ser reconstruído.

E eu estou nesse lugar.

Entre os destroços
daquilo que já não quero ser
e a vontade imensa
de começar outra vez.

Não quero juntar os pedaços
da mesma maneira.

Não quero reconstruir
as mesmas paredes
nem voltar a abrir
as mesmas portas.

Quero espaço.

Ar.

Luz.

Quero uma vida
onde possa respirar
sem estar constantemente
a tentar corresponder
àquilo que esperam de mim.

Talvez algumas coisas
tenham de ser desfeitas.

Algumas certezas.

Alguns medos.

Alguns laços
que confundia com destino.

Algumas promessas
que fiz a mim próprio
e que já não fazem sentido.

E não tenho medo
de admitir isso.

Aprendi que mudar
não significa apagar
quem fui.

Significa olhar para trás
e escolher conscientemente
o que merece continuar comigo.

Há memórias
que guardarei.

Há pessoas
que continuarão
a ter um lugar em mim.

Há cicatrizes
que não quero esconder.

Mas já não quero
que o passado
decida o tamanho
do meu futuro.

Quero reconstruir-me
com aquilo que sou agora.

Com as minhas imperfeições.

Com as minhas dúvidas.

Com aquilo que aprendi
quando tudo parecia ruir.

E talvez seja essa
a verdadeira liberdade:

não precisar de voltar
a ser quem era
só porque foi essa pessoa
que os outros conheceram.

Posso mudar.

Posso recomeçar.

Posso deixar cair
o que já não me sustenta.

E posso construir
algo que finalmente
tenha a minha forma.

Não sei exatamente
como será o amanhã.

Mas, pela primeira vez,
isso não me assusta.

Porque já não preciso
de ter todas as respostas.

Preciso apenas
de continuar a escolher
aquilo que me faz inteiro.

Se for necessário
desmontar tudo,

eu desmonto.

Se for preciso
começar com uma única pedra,

começo.

E, desta vez,

cada coisa que eu construir
terá uma razão:

não para impressionar alguém,

não para esconder as minhas falhas,

não para parecer forte,

mas para criar
um lugar dentro de mim
onde eu possa finalmente
sentir-me em casa.

Porque talvez
a minha maior transformação
não seja tornar-me
uma pessoa diferente.

Talvez seja, finalmente,

ter coragem

de ser

quem sempre fui.

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