sexta-feira, outubro 02, 2026

O Salto Que Ainda Não Dei


Passei demasiado tempo

a viver no limite das coisas,
com um pé no chão
e outro numa vontade
que nunca tive coragem de seguir.

Aprendi a olhar para o vazio
e a chamar-lhe prudência.
A dizer que ainda não era o momento,
que talvez amanhã fosse melhor,
que talvez fosse mais seguro
ficar onde já conheço as feridas.

Mas há alturas
em que permanecer parado
também é uma forma de cair.

E eu já não quero
passar a vida inteira
a imaginar como seria
se tivesse tido coragem.

Quero saltar.

Não sei onde vou chegar.
Não sei se haverá chão
ou se terei de aprender
a construir asas pelo caminho.

Sei apenas que existe dentro de mim
uma vontade que já não consigo calar,
uma espécie de fogo tranquilo
a dizer-me que a vida
não foi feita para ser apenas observada.

Talvez eu tenha medo.

Claro que tenho.

Tenho medo de perder,
de me enganar,
de voltar a entregar-me
e descobrir que, afinal,
algumas pessoas
não sabem ficar.

Mas também tenho medo
de acordar um dia
e perceber que deixei passar
tudo aquilo que poderia ter vivido
porque tive demasiado medo
de tentar.

Por isso, desta vez,
não quero garantias.

Quero movimento.

Quero fechar os olhos,
respirar fundo
e dar aquele passo
que tantas vezes adiei.

Se tiver de cair,
cairei.

Se tiver de começar de novo,
começarei.

Mas pelo menos saberei
que fui eu quem escolheu
não ficar preso
ao lugar onde o medo
me queria manter.

Talvez seja isto crescer:

não deixar de ter medo,
mas deixar de obedecer-lhe.

E talvez,
do outro lado deste salto,
não esteja a resposta
que procuro há tanto tempo.

Talvez esteja apenas
uma versão de mim
que finalmente descobriu
que viver
também é arriscar-se
a não saber o que vem depois.

Sem comentários: