domingo, setembro 13, 2026

Do Lado de Dentro

Há feridas
que ninguém vê.

Ficam escondidas
atrás de um sorriso,
entre palavras tranquilas
e silêncios cuidadosamente escolhidos.

Por fora,
pareço inteiro.

Por dentro,
há tempestades
que aprendi a atravessar sozinho.

Guardei demasiado tempo
aquilo que sentia.

Medo.

Desilusão.

Raiva.

E todas as palavras
que nunca encontrei coragem
para dizer.

Fui acumulando
pequenas dores
até que o coração
já não soube
onde guardar mais uma.

E então percebi:

não eram os outros
que mais me feriam.

Era tudo aquilo
que eu permitia
que continuasse a viver
dentro de mim.

Ressentimentos
que nunca me deixavam partir.

Memórias
que insistiam em voltar.

Promessas quebradas
que ainda esperavam
uma explicação.

Tive de olhar para dentro
sem desculpas.

Sem culpas.

Sem máscaras.

E reconhecer
que também eu
precisava de perdão.

Não para esquecer
o que aconteceu,

mas para deixar
de ser prisioneiro
daquilo que já passou.

Algumas pessoas
deixaram marcas.

Algumas despedidas
deixaram vazio.

Algumas palavras
mudaram para sempre
a forma como via o mundo.

Mas nenhuma delas
precisa de decidir
quem serei amanhã.

Hoje escolho
não carregar ódio.

Escolho não alimentar
as feridas.

Escolho transformar
a dor em compreensão
e as cicatrizes
em força.

Porque existe uma liberdade
que só encontramos
quando deixamos
de lutar contra o que sentimos.

Quando aceitamos
o que somos,

quando perdoamos
o que fomos,

e quando finalmente
abrimos espaço
para aquilo que ainda
podemos ser.

Talvez a verdadeira mudança
não aconteça quando
o mundo à nossa volta
se transforma.

Talvez aconteça
no instante silencioso
em que, do lado de dentro,

decidimos

que já não queremos
viver presos
àquilo que nos magoou.

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