Sempre caminhei devagar,
como quem nunca precisou
de correr atrás do mundo.
Aprendi cedo
que o silêncio também conversa,
que uma chávena esquecida na mesa,
uma janela aberta ao entardecer
ou o cheiro da terra depois da chuva
podem fazer companhia.
Nunca temi a ausência.
Ela ensinou-me
que nem todas as partidas
deixam vazio.
Há quem leve consigo
o calor de um abraço,
um riso que ficou suspenso no tempo,
um olhar que nunca se repetiu.
Não pesa.
Apenas mora.
É uma presença discreta,
como a luz que entra pela cortina
antes de a manhã acordar.
Continuo bem comigo.
Planto dias simples,
converso com os meus pensamentos,
e descubro que a paz
não faz barulho.
Mas, de vez em quando,
o vento traz um perfume antigo
e o coração sorri
sem pedir licença.
Talvez seja isso
o que fica das pessoas verdadeiras.
Não pertencem ao passado.
Transformam-se num lugar invisível
onde regressamos sem dar conta.
E, mesmo seguindo sozinho,
há caminhos
que nunca mais voltam
a ser percorridos por uma só sombra.

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