Passei a vida inteira
de mãos dadas com o silêncio.
Nunca lhe pedi que partisse,
nem ele me exigiu companhia.
Aprendi a conversar com o vento,
a rir das minhas próprias distrações,
a encontrar abrigo
no som discreto da chuva.
Não me faltava nada...
até ao dia em que um sorriso
abriu uma janela
numa casa onde eu já tinha fechado todas as portas.
Desde então,
o horizonte ficou mais bonito,
mas também mais distante.
Há pessoas que chegam
sem fazer barulho
e transformam para sempre
a paisagem de quem as vê.
Nunca lhes pertencemos.
São como estrelas refletidas num lago:
parecem estar ao alcance da mão,
mas vivem noutro céu.
Ainda assim,
não me arrependo de as contemplar.
Há uma beleza serena
em desejar o impossível
sem lhe arrancar as asas.
Continuo a caminhar sozinho,
como sempre caminhei.
Não por derrota,
nem por resignação.
Apenas porque algumas presenças
não nasceram para ser abrigo,
mas para recordar
que até o coração mais tranquilo
é capaz de encontrar um infinito
num simples olhar.

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