quinta-feira, julho 09, 2026

Agora

Passei anos

a guardar palavras
como quem fecha cartas
numa gaveta sem destinatário.

Dizia a mim mesmo:
"há tempo."

Tempo para partir,
tempo para ficar,
tempo para tentar,
tempo para sentir.

Mas o tempo
nunca pediu licença.

Foi passando,
levando rostos,
levando oportunidades,
levando versões de mim
que nunca chegaram a nascer.

Então compreendi.

A vida não espera
que os medos aprendam coragem.

Os dias não voltam atrás
para ouvir aquilo
que ficou por dizer.

Hoje já não procuro
o momento perfeito.

Procuro apenas
a verdade.

Se sorrio,
que seja inteiro.

Se abraço,
que seja sem reservas.

Se parto,
que seja porque o caminho me chama,
e não porque o receio me empurra.

Ainda caminho sozinho.

Não porque o mundo esteja vazio,
mas porque aprendi
que a companhia mais importante
é aquela que encontramos
quando deixamos de fugir de nós.

E, se um dia alguém decidir
caminhar ao meu lado,
não lhe prometerei eternidade.

Prometerei apenas isto:

Que nunca adiarei um gesto sincero.

Que nunca esconderei
o que o coração tem para dizer.

Porque a vida não começa amanhã.

Ela acontece
neste exato instante.

E este instante,
por mais pequeno que pareça,
é tudo o que verdadeiramente temos.

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