Passei anos
a guardar palavras
como quem fecha cartas
numa gaveta sem destinatário.
Dizia a mim mesmo:
"há tempo."
Tempo para partir,
tempo para ficar,
tempo para tentar,
tempo para sentir.
Mas o tempo
nunca pediu licença.
Foi passando,
levando rostos,
levando oportunidades,
levando versões de mim
que nunca chegaram a nascer.
Então compreendi.
A vida não espera
que os medos aprendam coragem.
Os dias não voltam atrás
para ouvir aquilo
que ficou por dizer.
Hoje já não procuro
o momento perfeito.
Procuro apenas
a verdade.
Se sorrio,
que seja inteiro.
Se abraço,
que seja sem reservas.
Se parto,
que seja porque o caminho me chama,
e não porque o receio me empurra.
Ainda caminho sozinho.
Não porque o mundo esteja vazio,
mas porque aprendi
que a companhia mais importante
é aquela que encontramos
quando deixamos de fugir de nós.
E, se um dia alguém decidir
caminhar ao meu lado,
não lhe prometerei eternidade.
Prometerei apenas isto:
Que nunca adiarei um gesto sincero.
Que nunca esconderei
o que o coração tem para dizer.
Porque a vida não começa amanhã.
Ela acontece
neste exato instante.
E este instante,
por mais pequeno que pareça,
é tudo o que verdadeiramente temos.

Sem comentários:
Enviar um comentário