Há um instante na vida
em que deixamos de fugir
ao reflexo que nos espera
do outro lado do espelho.
Não para procurar culpados.
Nem para apagar o passado.
Mas para aceitar
que cada escolha
deixou uma marca
na pessoa que hoje somos.
Carreguei arrependimentos
como quem transporta pedras
num caminho já demasiado longo.
Pensei que o tempo
fosse capaz de apagar
os erros que cometi.
Mas o tempo
não apaga.
Ensina.
Mostra-nos
que a verdadeira mudança
não nasce do esquecimento,
mas da coragem
de fazer diferente.
Hoje não peço
que me absolvam.
Nem espero
que todas as feridas
desapareçam.
Há cicatrizes
que merecem permanecer,
porque nos lembram
da distância
entre quem fomos
e quem escolhemos ser.
Se magoei alguém,
que as minhas próximas palavras
saibam cuidar.
Se falhei,
que os meus próximos passos
sejam mais firmes.
Se deixei o medo
guiar o meu coração,
que seja o amor
a indicar-me o caminho daqui em diante.
A vida concede-nos
um privilégio silencioso:
o de recomeçar
sem negar aquilo que vivemos.
Porque ninguém muda
ao apagar o passado.
Muda quando o transforma
na raiz
de um futuro mais verdadeiro.
E, quando o dia terminar,
quero olhar para trás
sem orgulho das minhas quedas,
mas com gratidão
pela força que encontrei
para me levantar.
Pois aquilo que fiz
pertence ao ontem.
Aquilo que escolho fazer hoje
é o que verdadeiramente
escreve a minha história.

Sem comentários:
Enviar um comentário