Há lugares onde nos escondemos
sem sequer perceber
que estamos a fugir.
Eu conheci esse lugar.
Era feito de promessas,
de palavras bonitas,
de braços que pareciam seguros
e de silêncios
que eu confundia com paz.
Queria apenas sentir
que alguém ficaria.
Que, quando o mundo pesasse,
haveria um lugar
onde pudesse pousar o coração.
E talvez tenha pedido demais
a quem não sabia
como me dar aquilo
de que eu precisava.
Confundi proximidade
com presença.
Confundi palavras
com certezas.
Confundi um abrigo
com uma prisão
onde, aos poucos,
deixei de saber quem era.
Havia calor,
mas faltava verdade.
Havia carinho,
mas havia também
uma distância que eu não conseguia atravessar.
E eu permanecia ali,
a tentar encontrar
num olhar
a segurança
que nunca chegava por inteiro.
Até perceber
que nenhum abrigo
pode ser construído
sobre o medo de perder alguém.
Eu não quero mais
um lugar onde tenha
de esconder aquilo que sinto
para continuar a ser aceite.
Não quero mãos
que me segurem
apenas quando lhes convém.
Não quero promessas
que soem bonitas
mas desapareçam
quando chega a tempestade.
Quero algo simples.
Alguém que fique
sem eu ter de pedir.
Um abraço
onde não precise
de explicar a minha dor.
Um olhar
que não me faça duvidar
do lugar que ocupo.
Quero poder chegar
com todas as minhas imperfeições
e ainda assim
sentir que pertenço.
E também quero aprender
a ser esse abrigo para mim.
A não abandonar-me
quando alguém decide partir.
A não diminuir aquilo que sinto
para caber na vida de outra pessoa.
A não chamar amor
àquilo que me faz
sentir sozinho.
Talvez seja essa
a parte mais difícil:
aceitar que nem todo o lugar
que nos protege
é um lugar onde devemos ficar.
Algumas portas
precisam de ser fechadas.
Algumas mãos
precisam de ser libertadas.
Alguns sonhos
precisam de deixar
de ser nossos.
Não porque deixámos de sentir,
mas porque finalmente
aprendemos a distinguir
amor de necessidade.
Hoje, se procuro abrigo,
não procuro paredes.
Procuro verdade.
Procuro tranquilidade.
Procuro alguém
com quem possa existir
sem representar
uma versão mais fácil
de mim.
E se esse lugar
ainda não existir,
eu espero.
Enquanto isso,
construo-o dentro de mim.
Pedra por pedra.
Com aquilo que aprendi.
Com aquilo que sobrevivi.
Com todas as partes
que pensei ter perdido.
Porque já não quero
um abrigo que apenas
me esconda da chuva.
Quero um lugar
onde possa abrir as janelas,
deixar entrar a luz
e respirar profundamente,
sem medo
de que o céu volte a cair.
E quando alguém entrar
nesse lugar,
quero que seja
para ficar por escolha,
não por necessidade.
Porque agora sei:
um verdadeiro abrigo
não é aquele que nos impede
de enfrentar o mundo.
É aquele que nos dá força
para sermos nós próprios
quando voltamos
a sair pela porta.



















