Desde que não estás aqui,
a casa continua de pé,
os relógios não perderam o ritmo
e as ruas não deixaram de existir.
Mas há qualquer coisa
que já não funciona como antes.
É como se alguém tivesse retirado
uma janela de dentro de mim
e, desde então,
até os dias de sol
me chegassem sem claridade.
Não sei explicar a tua ausência
sem falar daquilo que ela mudou em mim.
Há músicas que já não ouço da mesma maneira,
lugares que perderam o significado
e frases que me nascem nos lábios
mas acabam por morrer
porque não estás aqui para as receber.
Guardo conversas que ainda não tivemos,
imagino respostas para perguntas
que nunca cheguei a fazer
e dou por mim a reservar-te espaço
em momentos onde só existe silêncio.
É absurdo, eu sei.
Continuo a encontrar-te
em coisas onde não estás.
No reflexo de uma tarde bonita,
no cheiro que fica depois da chuva,
numa gargalhada que não é tua
mas que, por um segundo,
me faz virar a cabeça.
E talvez seja isto que mais custa:
o mundo está cheio de coisas bonitas,
mas perdi a vontade de algumas delas
porque já não tenho contigo
com quem as partilhar.
Não quero que sejas o sol
à volta do qual a minha vida gira.
Quero ter os meus próprios amanheceres,
voltar a reconhecer-me,
encontrar beleza nos dias
sem precisar de procurar o teu rosto
em cada horizonte.
Mas seria mentira dizer
que a tua ausência não me escurece.
Escurece.
Há uma espécie de inverno
que se instalou em certos lugares de mim
e que nenhuma estação consegue levar.
Às vezes, tento acender a luz,
mas descubro que não é o interruptor
que está no sítio errado.
É a falta daquilo
que tornava tudo mais luminoso.
E então percebo
que não sinto apenas saudades tuas.
Tenho saudades da versão de mim
que aparecia quando estavas perto.
Da espontaneidade que me devolvias,
da paz que não precisava de explicações,
da facilidade com que o coração
se esquecia de estar em guarda.
Perdi a minha luz
porque ela não está aqui.
Não sei se a perdi de verdade
ou se uma parte dela
aprendeu a esconder-se
no mesmo lugar onde guardo o teu nome.
Sei apenas que continuo a procurá-la.
Não para voltar a ser exatamente quem era,
mas porque ainda quero acreditar
que posso voltar a sentir
sem que a distância me roube a cor dos dias.
E, se um dia regressares,
não quero que encontres alguém
que ficou parado à tua espera.
Quero que encontres alguém
que atravessou a escuridão,
que aprendeu a cuidar das próprias sombras,
mas que nunca deixou de reconhecer
a beleza da luz que um dia lhe deste.
Até lá,
vou tentando amanhecer.
Mesmo quando o céu não ajuda.
Mesmo quando a noite demora.
Mesmo quando tudo o que me apetece
é fechar os olhos
e imaginar que ainda estás aqui.
Porque há ausências
que não fazem barulho quando chegam.
Limitam-se a apagar, devagar,
as pequenas luzes da nossa vida.
E a tua...
A tua ainda faz falta
em todos os lugares
onde costumava haver um pouco de mim.

Sem comentários:
Enviar um comentário