Há momentos em que a vida
me coloca diante de uma porta
sem dizer o que existe do outro lado.
E eu fico ali,
com a mão suspensa,
a pensar em tudo o que pode correr mal.
Aprendi a desconfiar do impulso,
a medir cada passo,
a imaginar o fim
antes sequer de começar.
Talvez porque já perdi demasiado
por acreditar em coisas
que pareciam certas.
Mas há qualquer coisa em mim
que ainda não aprendeu a desistir.
Talvez seja essa vontade teimosa
de sentir outra vez,
de deixar o medo no lugar
e avançar mesmo sem garantias.
Porque, no fundo,
não quero passar a vida inteira
a proteger-me daquilo
que também me pode fazer feliz.
Por isso, desta vez,
quero arriscar a sorte.
Não porque tenha certezas,
mas porque percebi
que também é preciso coragem
para aceitar que podemos perder.
Quero olhar para alguém
e não fugir quando sentir demasiado.
Quero dizer o que penso
sem esconder aquilo que sou.
Quero deixar cair as defesas
que construí para sobreviver
e descobrir se, por baixo delas,
ainda existe espaço para alguém ficar.
Se correr mal,
aprenderei outra vez.
Se doer,
vou saber que pelo menos vivi.
Mas se resultar...
se desta vez a vida decidir
não me tirar aquilo que desejo,
talvez eu finalmente perceba
que algumas coisas
só aparecem quando temos coragem
de tentar a nossa sorte.
E eu quero tentar.
Sem promessas.
Sem certezas.
Sem saber onde isto vai dar.
Apenas eu,
com todos os meus medos,
todas as minhas cicatrizes
e uma vontade imensa
de descobrir
o que pode acontecer
quando, finalmente,
deixo de ter medo
de ganhar.

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